segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Luzes no Céu

O entardecer havia terminado horas atrás. Quando o cansaço finalmente o alcançou, o Viajante saiu da estrada e colocou sua mochila no chão. Sem a jóia mais rara da noite para dar as caras, o céu era um véu cintilante de azul profundo e prata. Apesar do corpo pesado e da fome, o andarilho continuou de pé, tomado por uma profunda reverência como apenas as raras noites claras de verão podiam despertar.

O céu seguia rodando acima dele, e o Viajante contemplava, perdendo a noção do tempo. Depois do que lhe pareceu uma eternidade condensada em cinco minutos, algumas das estrelas começaram a se desprender do firmamento, deixando longos rastros finos e luminosos para trás. O Viajante caiu sentado na grama, maravilhado.

Sua avó costumava dizer que as estrelas se aproximavam assim da terra para ouvir melhor os desejos das pessoas. Se elas realizariam o seu desejo, ele não sabia, mas o Viajante fechou os olhos, acalmou seu coração e se concentrou no que realmente queria. Foi difícil no começo, pois uma infinidade de coisas passou pela sua cabeça, até que uma delas pareceu mais importante que todo o resto: felicidade. Felicidade e paz. Para si, para seus amigos e companheiros, para as pessoas que ele conheceu em suas muitas andanças, para aquelas que ainda conheceria e para os rostos anônimos na multidão. Que ele pudesse ser um instrumento dessa felicidade onde quer que passasse sempre que possível, e principalmente quando parecesse impossível.

Quando abriu os olhos novamente, a estrela cadente mais brilhante daquela noite cortou o céu, e ele teve a sensação de ter sido ouvido.

Então um pensamento inquietou seu coração. Antes fosse a mera incerteza de que teria seu pedido realizado. Não, o pensamento que lhe ocorreu foi uma certeza: o mais perto que seu desejo chegaria de se tornar realidade era ali, naquele momento, enquanto o pedido fervoroso inflamava seu coração e tornava seus sentimentos verdadeiros. Pois o futuro seria para sempre uma incógnita previsível.