sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Água - Parte 1

A noite quente impossibilitava qualquer sono contínuo e ela deitava, sem cobertas em, uma cama vazia. Nada mais conveniente, pelo menos para a mente egoísta que minava toda a energia de sua dona a fim de achar respostas noite adentro. O resultado? Várias noites sem dormir e uma frustração imensa pela vã procura.

Em alguma hora perdida pela madrugada um frescor estranho apareceu no quarto. Os lençóis estavam úmidos e frios. A sensação atípica forçou os olhos, antes movendo-se depressa por baixo das pálpebras como se procurassem algo, a se abrirem em um susto. O papel de parede se descolava por sobre sua cabeça, água e limo brotavam das paredes e das frestas do piso. A umidade subia pelos pés dos móveis e apodrecia a madeira. A pressão da água expulsava os pregos de seus buracos, e os quadros formavam pequenas ilhas no imenso quarto.

No momento em que a cama se desprendeu do chão e passou a flutuar livremente, não havia mais um segundo em que a sua mente se preocupava em achar respostas, havia apenas medo.

Espremida contra a cabeceira, ficou de olhos fechados esperando um pouco de luz passar pelas cortinas encharcadas e esverdeadas. Sentia que o dia traria a normalidade de volta à sua vida.
O quarto estava seco. As paredes não apresentavam sinais de mofo e o bolor havia sumido. Não vertia mais água de qualquer fresta ou buraco na parede. Os quadros estavam de volta em seu lugar.

Tomou café, se arrumou e saiu para o trabalho.

O caminho passava lentamente por ela e o tempo não passava enquanto ela tentava esquecer a noite desastrosa. Concentrava-se em caminhar na irregular calçada de pedra, em direção ao centro. Era fácil se desequilibrar com os saltos finos que vestira (e se arrependera – de fato, se arrepende dia após dia). Olhava fixamente pelos blocos. A concentração forçada consumia sua energia e quando cedeu, junto com ela foi-se a pedra mal colocada na calçada. 

O piso cedeu e afundou e a água que estava concentrada sob ele encharcou a meia do pé esquerdo. Isso seria um incômodo constante durante o dia. A umidade deixou seu pé gelado, subia pelos ossos da perna, irradiava pela coluna, dando pontadas. Com estas pontadas, vinham as pitadas de toda aquela miscelânea de sensações noturnas.

O homem lavando a calçada, o bebedouro que pingava no canto do escritório, as goteiras do telhado. Tudo servia de gatilhos para as pontadas de frio.

O dia passou devagar.

...

Os sonhos sonhados acordados eram mais sutis, mas igualmente torturantes.