sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Epílogo de um cavaleiro - Parte 1

“O que aconteceu?” era a única coisa que conseguia balbuciar.

“Me diga você, amigo” respondeu uma voz rouca e despreocupada, muito similar à de seu velho avô enquanto ele ainda era vivo. “É a sua morte, você com certeza sabe melhor que eu”.

“Perdão, o que disse?” dizia, agora com a voz um pouco mais forte.

“Eu disse que é você que tem que saber o que aconteceu, não eu” respondeu o velho com um suspiro. Repetir as coisas é cansativo...

“Não... é que eu entendi você dizendo que eu morri”.

“Ah!” exclamou o velho aos risos. “Claro, claro, esqueci dessa parte. É sempre assim: por um momento, o sujeito tem certeza de que vai morrer. No momento seguinte, tem dificuldades para aceitar que aconteceu”. O mundo dos mortos é feito de pequenas e cômicas contradições.

“Quer dizer que... eu morri mesmo?”

“Sim” respondeu o velho em um longo e reticente suspiro. “E nunca chega ninguém aqui com um assunto interessante”

“Aqui...” refletiu o homem por um instante. “Onde estou?”

Subitamente, se percebeu em um amplo e infinito vazio de luz acinzentada. À sua frente, o único objeto no meio do nada era uma cadeira de madeira sobre a qual se sentava o velho desleixado segurando seu cachimbo.

Tratava-se de um homem magro e rosado, de cabelos brancos e curtos, e seus braços exibiam fortes marcas do trabalho ao Sol. Usava uma camisa xadrez fechada até o peito, e suas calças, presas por suspensórios, estavam dobradas nas barras à metade das canelas, revelando sapatos surrados e meias velhas. Os olhos profundos e alegres transpiravam jovialidade e sabedoria, o traço daqueles que gostam de viver. Ou algo muito parecido com isso...

“E agora você foi prático” disse o velho com um sorriso de canto de boca. “Ficar repetindo a pergunta ‘eu morri? Eu morri?’ feito um asno não serve pra muita coisa. ‘Onde estou’ faz mais sentido”.

“É... estranho. Eu não tinha notado o ambiente até agora”.

“Você não quis saber dele até agora” respondeu o velho como se tivesse de elucidar o óbvio para um ignorante. “Demorou também pra notar que conversava com alguém, porque só me viu agora”.

O homem olhava ao redor, mas rapidamente percebeu que não havia nada a ser visto. Apenas vazio... e cinza. E o velho, claro. Uma quebra na monotonia.

“O que me acontece agora?” perguntou.

O velho pensou um pouco e deu uma longa tragada em seu cachimbo. “E como eu vou saber? Depende de quem é você. Quem é você?”

Os pensamentos confusos buscavam a resposta para a pergunta, mas não conseguiam encontrá-la. As únicas palavras que conseguiu ensaiar após a longa reticência foram: “Eu não sei. Devo ter esquecido”.

“Claro que esqueceu” disse o velho. “Você não tem ideia de quem é você. Você tenta lembrar seu nome, mas aqui os nomes não fazem diferença. Eu não quero saber o nome. Eu quero saber quem é você”.

Súbita realização tomou a mente do homem e, conforme ele refletia, olhou para as próprias mãos, que só então notou que tinha. Estavam sujas e cobertas de fuligem e terra. Eram mãos calejadas do manuseio da espada e da firme empunhadura da rédea. “Eu sou um cavaleiro”.

“E morreu de forma trágica” disse o velho balançando a cabeça em sinal afirmativo enquanto batia seu fumo queimado e se preparava para encher novamente o cachimbo. “Nunca vi alguém tão sujo antes por aqui”.

Notou em seu braço esquerdo um escudo chamuscado. Como luz no meio da escuridão, a imagem nítida lhe veio à mente da besta feroz de seus últimos instantes. “Sim” disse absorto nos próprios pensamentos. “Um dragão. Foi minha luta mais terrível”.

O velho levantou as sobrancelhas em assombro e deixou escapar um assovio. “Um dragão... essas coisas ainda existem. Mas você feriu esse dragão. Os outros que conheci que enfrentaram dragões chegaram limpos, sinal de que nem tiveram tempo de lutar”.

“Onde estão meus ferimentos?” questionou o homem, finalmente se lembrando das dores de seus últimos momentos.

“Não há ferimentos aqui, jovem. Sua aparência surrada servirá apenas de troféu. Deixe que os outros saibam, e deixe que esse seja você daqui em diante: o homem que enfrentou um dragão e se sujou”. Riu do título tosco que acabara de inventar.

“O dragão morreu?” questionou o homem olhando para o velho, ignorando completamente o desdém de suas palavras. Buscava uma fagulha de sabedoria que pudesse trazer à luz suas dúvidas e medos. “Minha esposa e minha filha moravam na vila próxima”.

“Eu não sei responder essa pergunta, jovem. Mas que diferença faz? Não há nada que você possa fazer agora”.

“Como você diz algo assim?” questionou o cavaleiro indignado.

“Como, não é?” respondeu o velho rindo e novamente acendendo seu cachimbo. “Mas é a verdade, garoto. Não há nada mesmo. Suas preocupações agora estão no mundo dos mortos. Deixe as preocupações dos vivos para os vivos”.

“Essas palavras não resolvem nada. Eu preciso encontrar um jeito”.

“Precisa? Ninguém encontrou um jeito para você, e você me parece muito bem. Elas com certeza ficarão bem também, seja lá ou aqui. Além do mais, essa é uma coisa você deveria ter aprendido antes de enfrentar um dragão face a face: algumas coisas não têm solução mesmo”.

Sem saber o que fazer, e sem saber o que pensar, o homem começou a andar, ignorando completamente o velho que continuava a falar. Não precisava de palavras de desmotivação agora. Precisava encontrar um jeito de descobrir se sua família estava bem, e apenas isso.

“Pobres daqueles que não aceitam os próprios limites” suspirou o velho após uma longa baforada de fumaça. “Pobres daqueles que não aceitam o fim de suas responsabilidades”.

O mundo dos mortos é assim: repleto de ecos de anseios e questões mal resolvidas. Mas, eventualmente, como aprendeu o velho, todos entendem.