domingo, 15 de fevereiro de 2015

Aparências

O Vilarejo das Ilusões nada tinha de especial. Se visitado durante os 364 dias do ano era apenas uma vila apertada e empoeirada na encosta de uma montanha. Mas não naquele único dia. Quem tivesse a sorte de encontrar seu letreiro enferrujado durante a noite de carnaval presenciaria uma das festas mais especiais já vistas.

O baile acontecia pontualmente ao entardecer, quando as luzes inundavam os paralelepípedos das ruelas, pintando-os de amarelo ouro. Serpentinas pendiam dos postes girando ao o som da música carnavalesca junto aos foliões, que enchiam as ruas com suas fantasias extravagantes e passos ensaiados. 

Bobos da corte faziam malabarismo, piratas lutavam com espadas de pau, crianças giravam de mãos dadas e senhoras mascaradas mexiam caldeiras fumegantes de creme, deixando escapar uma fumaça quente e doce que se misturava a neblina úmida e gelada que subia a montanha. 

Havia apenas uma regra durante a celebração: todos deveriam usar máscaras. Apesar de conviver diariamente, naquela noite ninguém sabia quem era quem. Amizades inusitadas eram feitas e as desavenças habituais - como o vizinho que fazia barulho até tarde e a senhora fofoqueira - davam lugar ao drama das Colombinas e Pierrôs. 

Para garantir que a lei fosse respeitada, no arco de entrada da cidade, uma garotinha vestida de Arlequina esperava os viajantes desavisados. Ao seu lado havia uma estante grande cheia de máscaras com uma placa de madeira escrita:

"Torne-se quem quiser. Seja quem sempre sonhou.”

Várias pessoas passavam por ali durante a noite. A maioria viajantes, que acabavam ficando para a festa. 

- Eu posso pegar qualquer uma?- Um rapaz olhava desconfiado para as várias fileiras de mascaras dispostas a sua frente. 

- Sim, só não pode provar. A que você escolher vai ter que usar. 

-  Não pode provar por quê?

- Nossas máscaras são especiais. Você realmente se torna o que você vestir. A graça está na surpresa. 

O viajante coçou a barba e encarou-as por vários minutos. As primeiras fileiras carregavam as máscaras mais bonitas. Reconheceu logo o trio clássico: Pierrô, Colombina e Arlequim. Ao lado delas estavam o Capitão, Pantaleão, Corallina e Coviello. Seus dedos se aproximaram da última, quase decididos, mas pararam ao ver a seguinte que era grande e dourada. Como seria se tornar o Rei Momo? 

Conforme seus olhos desciam, as máscaras iam ficando mais simples. O acabamento já não era tão bem feito e a tinta descascava. A ultima que podia ver era uma máscara de plástico transparente, que cobria o rosto inteiro. Segurou-a para olhar mais de perto, certo de que ela estava inacabada. 

- E esta é o que? - Ele perguntou, com receio de colocá-la no rosto. 

- Esta é a máscara que tira as outras. É para ser quem você é de verdade. 

- Qual é a graça de ser você mesmo no carnaval?

- Você sabe quem você é? 

 - Eu sou eu, oras. 

A garotinha deu um longo suspiro. 

- Tem certeza? - Ela insistiu. 

- Claro. 

- Sorte sua. Porque eu não teria coragem de usar uma destas. 

Ele olhou de canto e hesitou ao colocá-la. Em que ele iria se transformar? Agradeceu a menina e caminhou em direção a festa, só colocando a máscara quando já estava no meio da multidão. 

- Como eu disse, a graça está na surpresa. - Ela sussurrou.