terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Cemitério

O dia chuvoso já era suficiente para deixar o humor daqueles que caminhavam pela calcada de pedras portuguesas bastante apático. Mas naquela quadra havia algo mais para perturbar.

O rapaz caminhava ligeiro para chegar ao trabalho até ser interrompido por pequeno obstáculo. Havia barro para todo o lado. O piso estava quebrado, as pedras jogadas para o canto. E com a garoa, as pocas de lama se espalhavam por toda a frente do terreno onde havia apenas um tapume.

Munido de seu par de botas de briga, ele não tomou o risco de caminhar pela rua e resolveu atravessar o enlameado. Olhando cuidadosamente, procurava os lugares mais firmes para pisar, com sucesso. Até que seu olhar foi dirigido para um ponto peculiar.

No meio das pedras brancas e pretas havia um pequeno mosaico de pedras cimentado no piso, onde seria a soleira do que havia la. A antiga quitanda já estava fechada há um tempo considerável, mas ainda estavam la aqueles pedaços irregulares de pedra alaranjada.

Subiu os olhos e conseguiu ver o balcão de verduras seguindo pela lateral esquerda do espaço. Dona Maria os arrumava com cuidado, cortando os talos excessivos. O sorriso comum de todos os dias não estava lá. No fundo da loja, as bancadas refrigeradas da peixaria. As senhoras que não conseguem se acostumar com o supermercado imenso do outro lado da rua se enfileiram para comprar o filé de panga e pescado enquanto o peixeiro, estranhamente silencioso, limpa e pesa pedido por pedido.

O silencio da cena ecoava pelos corredores curtos que se enfileiravam na parte de direita da loja. A parede de cerâmica era ótima para da aumentar a reverberação do ambiente. O silencio de velório batia no fundo duro e voltava assombroso. O luto estava estampado na cara de todos os presentes.

Porém o corpo já não esta mais presente.

Ilusões e lembranças a parte, só sobrou a soleira de cerâmica alaranjada, em frente do tapume de compensado.

E uma bota suja de terra.