quarta-feira, 25 de março de 2015

Água Parte 2


A tarde não passava em uma das ultimas semanas do verão. Mas o outono psicológico já havia ficado para trás há tempos. Agora era hora de suportar um pouco mais o frio que não teima em passar. Era um frio úmido.

Aquele quarto jamais voltou a ser quente novamente. As manhãs haviam sido problemáticas. Ao acordar agitada, a água ia embora. Mas o cheiro do mofo ficava no ar. Por trás do velho papel de parede havia de ter um pântano de onde saia toda aquela umidade.

A mente não descansara por dias já. E, além do corpo, as ideias já davam sinais da estafa.

- Coisa estúpida. – Dizia pra si mesma. Era bem de seu feitio este tipo de julgamento, com termos fortes. "estúpido”; “lixo”; “podre”. Eram termos muito comuns no seu vocabulário.
               
Já havia se acostumado com tudo isso. Em todas as noites, a agua vinha, causava um alvoroço. Cama subindo, flutuando num mar turbulento. Água vindo dos buracos de pregos. Os gatos ilhados na mobília flutuante. Os pesadelos noturnos eram a parte fácil.
               
Mas os dias eram torturantes. Os pequenos incômodos plantados pela sua mente estavam insuportáveis. Durante o dia, esperava a noite vir para molhar tudo, para ver se daria um pouco de explicação. Era muito difícil ler as sutilezas, preferia guardar as perguntas para si e esperar que a gritaria noturna fosse mais fácil de ouvir.
                
 Mas não surtia efeito. As respostas não vinham. E uma mísera gota, escapada do sonho, já era capaz de preencher tudo com sua presença. Cada fresta. Cada vão. Cada espaço em branco entre as letras. O olhar do seu filho refletia o pesadelo. Pequenininho. Bem no meio das pupilas. Mas que culpa ele tinha afinal. Tão pequeno, jamais poderia entender tanto sofrimento.  Um dia ele vai aprender que a vida não é tão fácil assim.

- Primeiro você tem que sustentar sua casa. Sozinho. Depois você tem que ser feliz. Arranjar alguém. Casar. Seguir a vida. Depois vêm as frustações. Por alguns momentos algumas destas coisas ficam incompletas. E com isso vêm os pesadelos. E você tem que lutar com estes pesadelos enquanto dorme. Depois estes pesadelos te perseguem de dia. É uma crueldade o que a vida faz. E que culpa temos? As vezes é melhor ser duro. E tomar o caminho doloroso.

A explicação não significou nada para o recém-nascido deitado no berço. E com a lembrança fugaz da face alheira do bebê, de repente o relógio vira o ponteiro. 17:56.

Hora de voltar pra casa. Já deu por hoje.