sábado, 21 de março de 2015

Epílogo de um cavaleiro - Parte 2

Sugestão de leitura: Parte 1

Horas a fio de caminhada, e nada havia a ser visto além do tedioso e infindável cinza que impregnava a vista do ambiente. Haveria fim àquele lugar? Uma saída talvez? Intermináveis horas de vazio. Ou será que já se passavam dias? Era difícil dizer. Cinzento tormento de um nobre espírito.

A memória da batalha com o dragão ainda o assombrava. Padeceu vítima de ferimentos de seu combate épico contra a besta mitológica, mas agora, mais dolorosa que seus ferimentos de antes, convivia com a dúvida. Matara, afinal, o dragão? Estariam sua esposa e filha bem? Ansiedade e dúvida... impiedosos algozes da alma ignorante.

“Pobre alma penada” jurou por um breve instante ter ouvidoo cavaleiro. Em súbita parada, explorou com os olhos o vazio que o rondava em busca da fonte da voz. Uma senhora gorda de avental varria o chão despreocupada cantarolando algo pelo nariz; alguma melodia que trazia lembranças de infância.
“Perdão” interrompeu hesitante o cavaleiro. “O que disse?”

“Oi pra você também, jovem” disse a mulher com uma risada cínica, sem olhar o homem nos olhos. “A educação já foi um valor mais importante pros cavaleiros no passado”.

Perplexo, o cavaleiro olhava ao redor. Seriam todos os habitantes do mundo dos mortos loucos apáticos? Resignado, olhou para o chão, suspirou para recuperar a paciência há muito perdida e decidiu seguir o diálogo.

“Perdão. Olá. Ouvi a senhora falar alguma coisa”.

“Pobre alma penada” repetiu ela, não mais como um suspiro, mas como uma frase solta citada de um livro. “É como a gente chamava na minha terra aquelas almas que não sabem pra onde ir. Na minha infância, contavam histórias de almas penadas pra nos deixar assustados. Espíritos dos mortos que tentavam clamar por socorro, mas sem saber como. Hoje, eu vejo almas penadas e me dá muita dó...”.

“A senhora estava falando de mim?” questionou o homem, incerto se deveria se sentir ofendido ou não.

“Sim, jovenzinho” riu a mulher. “Uma alma penada toda suja andando sem destino, sem enxergar nada ao redor. Até me impressionou que você conseguiu me ouvir”.

“Não há nada a ser enxergado aqui, senhora. Me perdoe. A senhora está varrendo um grande vazio de cinza sem nenhum objetivo”.

“Não, garotinho bobo” disse ela no mesmo tom jocoso e irritante. “Essa é a entrada da minha casa”.

Tomado de espanto, o cavaleiro observou boquiaberto enquanto se desdobrava à sua frente a fachada uma modesta casa de alvenaria e porta de tábuas pregadas. Duas janelas adornavam a parede revelavam um ambiente interno bastante aberto e iluminado, e, ao batente da porta de entrada, uma placa talhada com o esmero ímpar dos artesãos itinerantes dizia “A alma feliz é a alma satisfeita”. Ele entendeu, como entendeu da outra vez que algo parecido sucedeu: a casa esteve ali todo o tempo. Ele apenas não a notava.

“Opa!” disse a mulher às risadas, exibindo sua boca de dentes bem cuidados. “Como será que isso foi parar aí, né?” Balançava a cabeça. Embora não olhasse o cavaleiro nos olhos uma única vez, parecia perscrutar-lhe cada reação, desde a confusão ao assombro. Poderia, por outro lado, ser sua experiência em conversas com outras “almas penadas” se revelando. Havia algo de rotineiro nesse diálogo para a estranha senhora. Parecia ter algum esmero em repetir diálogos já conhecidos, e parecia se divertir com isso.

“Tá” disse o homem balançando a cabeça. “Já vi seu truque. Não estou interessado em mais conversas que giram em enigmas sem sentido e que não levam a lugar algum. Já me bastou o velho lá de trás”.

“O do cachimbo?” perguntou ela, fitando-o pela primeira vez e se apoiando em sua vassoura.

“Sim, o do cachimbo” disse ele, contente em ter algo diferente para falar.

“Ele é bem estranho mesmo” observou a mulher em tom de acordo, voltando a varrer o chão. “Mas ele gosta de recepcionar os novatos. Não tem muita gente com a paciência dele por aqui. No seu lugar, eu voltaria lá e bateria um papo bem longo com ele”.

“É mesmo?” perguntou petulante o cavaleiro. “E o que eu ganharia com isso?”

“Um pouco de sensatez” disse a velha em tom de chacota. “Isso ele tem de sobra, e gosta de dividir. Não te faria mal, tenho certeza”.

“Pra que me serve a sensatez dele? Ele não pode me ajudar a saber da minha filha e minha esposa”.

A velha balançava a cabeça visivelmente entristecida. “Ah, essas novas gerações... até para adquirir sabedoria eles precisam de um motivo. Muito nobres... mas muito tolos”.

O cavaleiro a olhava longamente, mas agora se sentia intrigado. Em outra circunstância, talvez em vida, se sentiria ofendido e interromperia ali mesmo o diálogo. Lembrava, porém, de ouvir algo do velho... “Algumas coisas não têm solução”. As palavras cortavam seu coração por dentro, e as feridas se expunham em sua expressão desamparada.

“Os velhos não pensam como os jovens” continuou a senhora, percebendo a deixa de ser ouvida. “Nós já vimos muito. Já perdemos muito. Não nos desesperamos para curar feridas que não têm remédio” disse do topo de sua serenidade, indiferente à tristeza que aquelas palavras poderiam inspirar em algumas pessoas. "É uma forma de não se atormentar”, adicionou se voltando para o homem mais uma vez, agora com um sorriso simpático. “Quem sabe um dia você aprenda. Só assim sua pena terminaria”.

“Não preciso terminar minha pena. Preciso saber da minha família”.

“Não precisa” disse a velha. “E sua pena é não aceitar isso”.

Silêncio dominava o ambiente enquanto a mulher apanhava um espanador apoiado na parede de dentro da casa e começava a afastar pó da placa do batente. “A alma feliz é a alma satisfeita”. Que palavras amargas para alguém que não acredita mais poder encontrar satisfação.

Sem pensar no que acrescentar, e apenas para se afastar da velha e não mais pensar em palavras nas quais não queria acreditar, o homem, antes orgulhoso e obstinado, baixou sua cabeça e se virou para sair. “Eu... vou seguir o meu caminho. Desculpe incomodar a senhora”.

“Não foi incômodo, rapazinho. Se por acaso encontrar a casa de ervas, peça um chá. Com minha filha sempre funcionava pra curar ansiedade”.

Tornou a andar sem pensar se iria encontrar qualquer coisa. Não dava mais passos decididos, mas apenas passos lentos e pesarosos. O caminhar de quem percebeu, enfim, que suas perguntas não têm resposta. Nova marcha sem destino para uma alma penada.