sexta-feira, 6 de março de 2015

Pelo Buraco da Fechadura

O garoto era curioso, como só um menino da sua idade podia ser. E era também ignorante do mundo, como só a idade podia justificar. Desconhecia, por exemplo, o peso da palavra "privacidade". Ouvia os irmãos mais velhos usarem essa palavra quando iam ao banheiro para que ele parasse de segui-los, o que o fazia pensar que era algo relacionado a privadas. Mal sabia ele que essa palavrinha afiada também se referia a casas de portas e janelas trancadas que só se abriam em raras ocasiões de necessidade.

Era do lado de fora de uma casa assim que ele estava meio agachado, escondido do movimento da rua pela grama alta do jardim há anos descuidado. Essa porta dava para uma área de serviço de onde ele conseguia ver uma parte da cozinha. Dali, via as mãos de um velho passarem margarina numa fatia de pão, derrubando migalhas sobre um pratinho na ponta da mesa. Não conseguia ver o homem sentado, mas sentia o cheiro do café pingado que ele tomava. Até o adocicado do café ele podia sentir na língua, que de tão forte se espalhava pela casa e atravessava a fechadura da porta. Como em muitas manhãs, teve ganas de se convidar para a mesa do café. Sua mãe dizia que ele ainda era muito novo para tomar essas coisas, mas tinha a impressão de que o velho que morava ali não se importaria em dar a ele uma xícara. Isto é, se soubesse que ele existia.

Não sabia bem o porquê, mas a vida daquele senhor o fascinava. As semanas já fechavam quase um mês desde que começou a observá-lo por pura curiosidade. A casa estava sempre isolada do restante do mundo, com breves frestas acidentais nas cortinas que deixavam passar uma mísera réstia de luz. O contraste com as outras casas da vizinhança era tão grande que o menino teimou em conhecer quem poderia viver assim, sem sequer sair da varanda da própria casa.

Suas técnicas mirins de investigação foram melhorando com o passar dos dias. Logo no segundo, quase foi descoberto espiando pela janela da cozinha. A fresta na cortina foi brutalmente fechada, mas não sem antes deixar passar um olhar desconfiado do morador, o que ensinou ao menino uma grande lição: agora ele só observava pelas fechaduras das três portas que davam para o lado de fora. Até evitava olhar pela porta da frente, pois as pessoas que passavam pela rua poderiam vê-lo e chamar a atenção do velho. Pela porta dos fundos era mais seguro e podia ver a sala de estar claramente, com seu sofá de três lugares e televisor antigo, onde aquele senhor passava metade do seu tempo. Dali, separada apenas por meia parede e nenhuma porta, podia ver também um bom pedaço da sala de visitas, com um pequeno sofá de dois lugares e uma poltrona velha. Havia também uma estante de onde ele puxava volumes literários aparentemente aleatórios, apenas para ler ou reler algum trecho, mas esta o menino conseguia ver apenas pela porta da frente.

Como que se incorporando à rotina pouco metódica do velho, o menino já se posicionava atrás da melhor porta para observá-lo quando trocava de cômodo, e até já sabia atrás de qual arbusto ficar para observar os raros momentos em que ele ia até a varanda. Dali ele jogava os sacos de lixo o mais próximo que podia da calçada para que fossem recolhidos, e também recebia o rapaz da mercearia com a entrega semanal de víveres, sempre com um pé desconfiado para dentro da porta como quem está prestes a correr ao menor indício de perigo. Fora essas aventuras do lado de fora da casa, o dia-a-dia do velho era pouco digno de nota: acordava tarde, comia seu pão com margarina e café melado, almoçava um bife com qualquer outra coisa – exceto arroz e feijão – algumas horas mais tarde, e o restante do tempo alternava entre seus livros, algum jornal que o garoto da mercearia lhe trazia (ao qual passava horas resmungando, mesmo não tendo ninguém para ouvi-lo) e a televisão. Não jantava, mas durante todo o dia beliscava punhados de pipoca, torrada e castanhas.

Como um fenômeno raro da natureza, o menino observou com certa reverência um homem visitar o velho. Ele era um pouco mais jovem e tão parecido que parecia ser uma fotografia antiga do morador da casa. Concluiu que devia ser um filho ou qualquer outro parente, o que não impediu que o clima na pequena sala de visitas ficasse um tanto tenso. Da porta dos fundos, o menino distinguiu poucas palavras. O homem parecia trazer uma notícia triste, carregada pelas palavras "deveria visitá-la" e "nada bem". Nunca antes o menino havia visto ombros tão caídos em sinal de derrota. Sentiu que não deveria estar ali, ouvindo aquela conversa, e por educação foi tratar de brincar com as outras crianças da rua, mas sem conseguir esquecer aquele fenômeno tão raro. Começava a desenvolver uma teoria de que o velho talvez tivesse medo de sair de casa. Por isso tinha atitudes tão estranhas para evitar ir além da pequena varanda da frente. Talvez.

Hoje, semanas depois, a rotina do velho seria quebrada novamente, a começar com um telefonema. O garoto havia até esquecido que havia um telefone na casa, levando um susto quando este tocou. O homem foi até a sala dos fundos atender, ao que o garoto correu para a porta correspondente. Quando chegou ali, ouviu de forma indistinta as palavras "hospital" e "internada" engasgarem na garganta do velho. Ele desligou o telefone, ficando algum tempo no meio da sala, estático. Então pegou um retrato da mesa de centro, onde o garoto conseguiu ver uma moça que tinha o mesmo nariz que ele. Os ombros do velho começaram a balançar num choro silencioso. As únicas palavras que ele conseguia deixar escapar entre os soluços eram "minha menina".

Desta vez, em vez de se retirar e deixar o velho com seus problemas, o garoto sentiu que devia estar ali. Mas observar era pouco. Deu a volta na casa, subiu os degraus da varanda e ficou parado diante da porta. Hesitou, sem saber bem o que pretendia fazer ali. O choro do velho se fez audível, afastando qualquer racionalidade do garoto. Com o coração apertado, tocou a campainha.

Precisou tocá-la mais de uma vez para que o velho se recompusesse o suficiente para atender a porta. Ouviu-o reclamar, a tristeza interrompida transformando-se rapidamente em indignação tempestuosa. O menino não arredou pé.

Quando o velho atendeu a porta já com meio palavrão na boca, o garoto ignorou o xingamento e o abraçou pela cintura antes que ele se desse conta de quem estava à porta. Murmurou um sentido "Vai ficar tudo bem" antes de desfazer o abraço e olhar sinceramente nos olhos. Antes que ele esboçasse alguma reação, saiu sem dizer mais nada.

Já quase virando a esquina, criou coragem para olhar para trás. O velho estava de queixo trêmulo e caído, amuado, ainda segurando o retrato da filha. Quando caiu em si, já estava no meio da calçada e tinha uma filha para visitar no hospital. O retrato manchado de lágrimas em suas mãos parecia maior que tudo naquele momento. Já o seu medo, não parecia mais tão importante.