quinta-feira, 2 de abril de 2015

Aprendiz de Temporal

- Sonhos? Não sei se sou a pessoa mais indicada para falar sobre isso. Só porque sou velha não significa que eu saiba muito das coisas. Ainda mais algo tão complicado quanto sonhos. Mas, já que perguntou…

"É realmente algo muito curioso. É algo parecido com querer, talvez. Mas quando você atravessa aquela linha entre querer e sonhar, ah!, isso é difícil dizer. É até difícil definir essa diferença. O querer está mais ligado à posse de algo ou a um estado passageiro que, quando atingido, se desfaz. Sem remorso, sem saudades, sem nostalgia.

"Já o sonho, este deixa uma sensação mais duradoura quando é alcançado. Por mais que seja um momento efêmero, ele deixa uma marca eterna na gente. É como ver o mar pela primeira vez. Dura menos de um segundo, nunca vai se repetir, nem que se more a beira-mar até o fim da vida. Mas aquele momento em que você se encontra diante daquela imensidão e sente que, de alguma forma, você faz parte daquele infinito, e que agora é uma pessoa diferente por causa disso… essa é a sensação de alcançar um sonho.

"Mas eu acabei me adiantando e comecei pelo fim. Atingir um sonho pode ser muito difícil. Algumas pessoas levam a vida inteira tentando alcançá-los. E assim como eles podem caber numa fração de um suspiro, eles podem também ser algo contínuo, e mantê-los é tão difícil quanto realizá-los. Não vou dizer que depende apenas de sorte, mas ela ajuda a acelerar as coisas. Esforço é o que mais conta, mas nem mesmo a maior determinação do mundo é garantia.

"Sonhos… Coisinha complicada que você foi me perguntar. Não posso te dar nenhuma certeza quanto a eles. Aposto um olho como ninguém pode. Só posso dizer por experiência que ter um sonho e dedicar todo seu tempo e energia possível a ele é como olhar para o céu estrelado numa praia deserta. Não importa o quanto você teve que andar para estar ali, uma paz gigantesca e um contentamento indescritível tomam conta de você no momento em que olha para esse céu, fazendo tudo valer a pena."

O garoto, tão jovem, olhava com olhos arregalados para aquela velha enrugada quase tão baixa quanto ele. Sua expressão era de espanto, mas também de fascínio, como alguém à beira de um precipício que tenta espiar o rio correndo claro e reluzente lá no fundo.

- Eu nunca vou perder essas estrelas de vista - conseguiu falar em meio a um suspiro.

- Isso é o que todas as pessoas esperam quando se trata dos seus sonhos, mas você tem que entender que às vezes esse céu estará nublado. Você tem que continuar acreditando que as estrelas estão lá ou então nunca mais as encontrará. E, não vou mentir para você, durante as piores tempestades você vai se sentir como um tronco flutuando à mercê da maré. Mas não se sinta culpado pelo mal tempo; não é algo que consigamos parar ou evitar. Só podemos "aguentar".

O menino parecia quase assustado agora.

- Como eu faço para não perder as estrelas de vista e… e não deixar o mau tempo me afastar delas?

- Só existe um jeito de manter o céu limpo sobre o seu olhar: você tem que ser a tempestade. Mas não qualquer tempestade que chega destruindo tudo pelo caminho dos outros. Você tem que ser aquela tempestade que lava as dores e as dúvidas, que mostra às pessoas suas forças e que sai no momento certo para que elas possam seguir suas próprias estrelas um pouco maiores do que quando você chegou. Se não conseguir fazer isso, você vai focar sua atenção no sofrimento dos outros e se esquecerá de olhar para cima.

"Não é fácil seguir seus sonhos e ser a tempestade. Exige força, coragem, firmeza e empatia constantes. Mas, pelo seu sorriso, sinto que isso já é parte do seu sonho."