domingo, 12 de abril de 2015

Paralelos

Em meio ao vento gelado do fim da tarde e aos flocos de neve se amontoando na calçada, um burburinho começava a tomar conta do vilarejo. Senhoras traziam latas com óleo velho queimando e espalhavam pelo pequeno palco de pedra da praça. A luz fraca dos postes se derramava entre a neve branca, dando um tom dourado e quase quente ao lugar. 

Aos poucos os espectadores iam se aproximando e se acomodando no lugar de costume. Não havia nenhum cartaz ou aviso. Não havia nenhum palhaço anunciando o espetáculo. Não era necessário. Ele se repetia desde sempre, desde que o mundo era mundo e os mais velhos daquele lugar diziam que seus avós e bisavós também não faziam ideia de como tudo começou. 

Tudo o que se sabia era que, sempre naquele dia e hora, ele viria carregando seu carrinho de madeira, abrindo caminho por entre os amontoados de neve. O senhor, que nunca envelhecia, parava no meio do palco com seu teatro de marionetes. Lá ele acenava para os rostos familiares, sorria e começava seu trabalho. 

As mãos enrugadas e ágeis desenrolavam os fios e abriam as portinholas de madeira para o desconhecido. Tocos de vela já derretidos eram alinhados nos cantos da caixa e um fósforo era tudo o que precisava para o velho trazer vida a um novo mundo. O marrom quente e o amarelo das velas escorriam para o chão em meio a platéia apinhada e iluminavam os olhares curiosos. 

Sua voz rouca e baixa sempre entoava uma história diferente. Aquele dia as cordas traziam vida a pequenos piratas empunhando pistolas e sabres. Uma luta era travada entre dois navios e, ao longe, era possível ouvir o barulho de canhões disparando. O vento gelado agora soprava morno e o cheiro úmido de neve estava carregado de suor, sal e pólvora. 

A pequena praça se transformara em um palco de batalha dos sete mares. Ali, vários sons se misturavam. O barulho do aço das espadas, do tiro seco seco das pistolas e os urros e comandos do capitão. O som da prancha balançando, da bala de canhão mergulhando no casco inimigo e o grito de retirada. A canção de vitória e os copos de rum trincando eram seguidos pelo suspiro de alívio dos espectadores e pela voz do senhor voltando ao tom habitual. O navio voltara a ser de farpas e o mar feito de papel aquarelado. As portinholas foram fechadas e o chapéu ao seu lado recheado com moedas. 

Com um sorriso, terminou seu trabalho, acenou e se retirou, carregando seu carrinho por entre os amontoados de neve. A senhoras recolheram as latas de óleo, agora apagadas, e as pessoas se encolheram dentro dos seus casacos e rumaram em direção a suas casas para o jantar. 

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Os piratas estavam estirados no convés do navio, aproveitando o vento fresco que a noite trouxera e o balanço calmo depois da batalha. Além das ondas quebrando nas rochas, o único som que podia se ouvir era uma voz calma e rouca do senhor que estava sentado no degrau mais alto, perto do leme. Lá ele trazia páginas de um livro velho a vida como quem fazia um importante discurso. Seus parágrafos traziam detalhes sobre um lugar distante e desconhecido. Um vilarejo entre as montanhas, mergulhado em um frio congelante. Pessoas de olhos grandes e curiosos caminhando sob a luz de postes amarelados, encolhidas dentro de seus casacos. Uma terra nova a ser explorada. 

- O que você está fazendo? - Perguntou o capitão quando o pirata que estava ao seu lado começou a mexer os pés para frente e para trás, se balançando. 

Olhando fixamente para as tábuas do navio sujo, seu olhar era distante e sonhador: - Imaginando como deve ser caminhar sobre estes tais flocos brancos e úmidos. 

O capitão balançou a cabeça e fechou os olhos. Com o coração calmo após a luta vencida, se deixou levar pelas palavras roucas do velho, pelo balanço do mar e pelo vento fresco, quase frio, que trazia o cheiro do óleo queimado.