sábado, 30 de maio de 2015

Campo de Marte

Flores balançavam ao vento. Os talos fininhos não aguentavam a menor das brisas. Dobravam-se, quase encostando as pequenas coroas coloridas na terra. Nem a grama era capaz de crescer naquele solo, mas aquelas plantinhas resistiam a qualquer pessimismo. Eram pequenas, de várias cores suaves. Suas folhas, finas como os talos e escassas para não roubarem a cena.

A cena: entre dois morros, uma planície sem vida alguma, exceto pelas mirradas flores. Agora silenciosa, mas outrora o palco de um embate violento de onde apenas a Morte saiu vitoriosa. Nenhum louro foi conquistado naquele dia, nenhum herói voltou para casa. E para cada coração que parara de bater ali, pelo menos outro deixara de viver em casa.

Em meio a esse árido solo rubro, as flores crescem. Coisinhas miúdas surgindo aqui e ali, insistindo, persistindo. Mal parecem ter vida elas mesmas, sendo seu único alimento a memória do que se passara ali.

E a esperança.

Ela chega de forma inesperada, como a brisa que carrega seu aroma rarefeito além dos morros. Uma criança vem, colhe uma flor, depois outra e mais uma. Com suas mãozinhas pequenas, colhe três flores azuis para os irmãos, uma rosa para a irmã e uma amarela pelo pai. Depois corre para trás do morro de onde veio.

Lá do outro lado, as florzinhas colhidas se banham com o sol da tarde dentro de uma latinha de ervilhas. Logo uma pedra grande e lisa lhes faz sombra. Nela lia-se tantos nomes quanto haviam flores na planície silenciosa. E essa é apenas metade da história.