sexta-feira, 19 de junho de 2015

Artesão

Os dois irmãos eram chegados como nunca desde que o primeiro havia ido embora de casa. Os encontros menos frequentes foram o preço que o tempo cobrou pela maturidade de, hoje homens feitos, deixarem pra trás aquele monte de picuinha, coisa boba, da infância e adolescência. Santa ironia. Mas os dois jamais foram tão diferentes.

A mesa de jantar da família sempre reservava uma conversa à italiana. E a conversa entre os dois era direta. Havia medo do que viria, porém de tanta os caminhos eram claros para o mais jovem. Precisavam apenas ser traçados. 

“Porque o mundo e as coisas são assim”,
“Porque as portas estão aí, abertas”, 
“Porque é tudo bem simples”, dizia o caçula antes de continuar com coisas o que o outro jamais entenderia.

Deve ser maravilhoso olhar o mundo através de olhos de peixe pensou o outro.
E saber colocar todas essas distorções em um mapa fiel, mas tão fiel, que dava para apostar tudo em cima de um plano feito a prova de falhas.
Mas tudo isso era grego para ele. Seus olhos pareciam normais. Até mais fechados, se for.
No fim, os antolhos serviam bem, como aquelas roupas cujo caimento é tão preciso, e o tecido é tão leve que nem sentimos no corpo.

A arte de ser um artesão e querer ser artista é algo deliciosamente irônico. O vício de olhar para frente e temer que tudo em volta é apenas distração, fruto de um certo transtorno do déficit de atenção, mas se coçar para não olhar envolta.
“Afinal o cachorro é apenas um filhotinho”.
“Afinal o dia está lindo para ficar aqui dentro”.
Que tortura.
O vício de querer trabalhar apenas com aquilo que está em mãos. É o vício de gostar de olhar pra dentro. E ser feliz diante da mesa de trabalho. Diante do papel em branco. Com o instrumento no colo. De fazer grandes obras através do conjunto de pequenas.

 O vício do ofício o segura no chão enquanto torce para o irmão voar.
Afinal parece que estar distantes é o preço que se paga pela maturidade.