terça-feira, 30 de junho de 2015

O vestido de vidro

O encontro não estava marcado, porém aquela esquina qualquer estava aguardando o momento. Era final de tarde, porém faltava um bom tempo para que o sol se escondesse atrás dos prédios da avenida. A avenida estava mudada. Os antigos casarões e prédios baixos deram lugares às galerias e grandes prédios. Entre estes últimos surgia a figura da moça.

Ela vinha, sem jeito, vestia orgulhosa um tecido de céu que cobria tudo, e não deixava curvas para interpretar. Os olhos estavam cobertos sob as lentes escuras. O cabelo não era nada demais. A falta de graça do resto voltava os olhos para o vestido. Então é ele que importa.

O tecido era formado por pequenos cristais costurados com cuidado por um fio quase invisível. Eram pequenos espelhos que mostravam o céu com seu azul inconfundível. E foi nesse azul hipnotizante que os olhos do rapaz pousaram. Ele esperava para atravessar, era algo simples, porém a fixação pelo vestido fez com que esperasse.  Os compromissos podiam ficar para depois. Nada de tão importante.
Pediu um café e uma coxinha, ficou em uma mesa na calçada da charmosa cafeteria. O toldo bordô tampava a única boa fresta que mostrava o céu. Mas não importava. Aquele vestido estava na sua frente e mostrava tudo.

As horas passavam e o azul do vestido dava um lugar ao vermelho  alaranjado apaixonante do por do sol. E a cada momento a conversa se tornava menos importante. Nenhum dos dois se lembra qualquer assunto falado. Ele mal via o olhar, tampado pelos óculos, para ter noção de se ela gostando do papo. Ficava jogando qualquer coisa que vinha na cabeça na conversa e enquanto ela não ia embora, estava bem.

O vestido de vidro era uma joia sem preço. Cobriu de céu toda a falta de jeito, toda a falta de carisma, etc. Atraia todos os olhares em volta. O vermelho rubi refletia nos olhos do rapaz e no de todos em volta. Dona Maria, que veio servir mais uma coxinha não tirava os olhos.

Café vai, conversa vem e foi caindo devagar a noite. E com ela veio a surpresa. O que seria do tal vestido sem pela noite?

Com o ultimo suspiro do sol, a magia se perdeu. Lá estava a garota. Desnuda. Na frente de todos os que antes estavam hipnotizados com o brilho rubro, mas agora, com a visão inesperada do corpo sem tantos atrativos. Mas não há como tanta pele exposta não chamar a atenção. Não tinha vergonha, pois era o preço de usar tal joia. E ela não estava sozinha.

Dia seguinte seria a mesma coisa. Estava presa a esta sina dia após dia. E estará para sempre. E todos aqueles que depositam tudo no maravilhoso vestido de vidro.