terça-feira, 21 de julho de 2015

O Casebre

Todos os meninos sentavam na beira da rua e estranhos lhes davam de comer. Tamanha generosidade os cegava da realidade de quão cruel o mundo haveria de ser. Havia ainda um quinhão de inocência que ainda tinha muito pra durar, ou talvez de uma hora para outra iriam perceber que estavam sozinhos. E que, de uma hora para outra, a ternura do rosto infantil iria acabar e mais nenhum estranho iria parar.

Durante a noite os corpos juntos tentavam se esquentar, enquanto a chuva de pedras teimava em castigar o pequeno casebre improvisado que usavam como abrigo. Olhar o rosto daquele que estava ao lado era o único alento possível para tentar aceitar a realidade trágica que a cena retratava. Noite após noite os pequenos se deitavam e torciam por um pouco menos de frio e chuva. Um pouco menos de lama e gelo.

Felizmente os estranhos continuavam a parar, e olhavam os meninos brincando pelo gramado. Corriam rápido para ver que era e com um sorriso os recebiam. O pouco que ganhavam era tudo que precisavam. O pouco que ganhavam era realmente muito pouco, mas eles não sabiam.
Noite após noite, o espaço do casebre era maior. Os meninos iam embora, pouco a pouco. E quem sobrava estava mais preocupado em se aquecer a noite, correr e se divertir de dia. Os estranhos não paravam de estender a mão. 

Até que certa noite só sobrou um único menino. Não conseguia se aquecer. Não havia um companheiro para parar o vento. Ainda não havia chegado a sua vez. E, afinal, ele não sabia para onde todos haviam ido. Aquele casebre à beira da rua era frio e úmido. Triste, agora que estava vazio. Quando um dia chegasse a sua vez, tentou imaginar que seria estranho para os estranhos passarem e não haver mais meninos brincando naquele lugar. Para quem deixariam aquele pouco que deixavam.

O casebre ficaria ali. Abandonado. Até que, assim como os meninos, sumiriam o telhado, as paredes de madeira.  Os panos e trapos. Não sobraria nada. Tal como estava o lugar antes de aparecerem os meninos.

Os estranhos iriam continuar passando. Porém, sem a presença viva dos meninos, aquele lugar voltaria a ser um pedaço de grama qualquer. Ninguém mais iria parar.