terça-feira, 11 de agosto de 2015

Bandeja

Todos os dias, não importava a qual bufê fosse, era sempre a mesma coisa. 
Assim que tomava seu lugar na fila, a preocupação menor era escolher a comida. Bife ou frango, arroz integral ou normal, nada disso a incomodava. O problemão mesmo era quando precisava sair do bufê e escolher a sua mesa. Quase sempre pegava as mais próximas, tomada por um pânico simples: derrubar a bandeja.

Só de imaginar se desequilibrando, os pratos todos pelo chão depois de voarem vários metros adiante, suava frio. Sequer conseguia saber o que poderia ser pior, esconder-se e sair correndo ou encarar a todos e começar tudo do zero, admitindo que falhara, que não soubera a medida do caminhar ou manter o equilíbrio do peso por toda a mão.
Cada vez que pegava sua bandeja, agarrava-se a ela como se a vida dependesse disso, calculava cada passo, reduzia a velocidade, olhava cada milímetro do bufê... e o processo era tão angustiante, nervoso, que não conseguia escolher nada muito diferente, pegava o trivial, rápido, seco.
O que diria aos colegas de trabalho, que veriam ao longe a sujeira em sua roupa, quase um estigma de sua falta de habilidade na vida? Como seria olhar para as pessoas depois que se levantasse? Ririam, diriam que ela não consegue fazer nada direito e que estava melhor acomodadinha, sem ficar se arriscando por aí.
Já sentada, secretamente admirava as pessoas desenvoltas pelo restaurante, com bebidas nas bandejas, às vezes atendendo ao celular, segurando tudo com uma mão só. Por que não nasceu tão ousada? Engolia a comida.
Por vezes preferia ir até um desses lugares que serviam "prato feito": tudo na mesa, sem perigo nenhum, mas, três dias seguidos e não mais conseguia, sempre igual, sentia falta de ser dona da bandeja e pegar o que lhe desse na telha. Tudo era seguro, mas perdia a
cor com facilidade.

Em um de seus almoços regados à angústia, finalmente caiu.
Estatelou-se no chão, comida por todo lado, barulho, olhares... o mundo parou de girar e sentiu sua mente vazia, como se tivesse envolvida por um vácuo sem fim.

De repente, riu-se.
Riu-se de como tivera medo de um momento bobo, que bagunça não demorara mais que cinco minutos para ser resolvida. E não estava sozinha, muitos ajudaram-na a se levantar e recolher os cacos.

Depois da epifania, passou a equilibrar a bandeja nos dedos, desfilando nos saltos e sentindo o sabor da liberdade de escolha. Não tinha mais medo de que nada desse errado, queria mesmo que todos vissem o que ela gosta de comer. Era apenas uma bandeja, e ela derrubaria várias até o final de sua vida.