terça-feira, 25 de agosto de 2015

Instantes: #1 - Partida

Ela fechava a porta de casa uma última vez.
Na carreta, praticamente tudo que ela possuía estava empilhado, amarrado ou empacotado em uma apertada de papelão.
Praticamente.
Em suas mãos o último item que restava em casa. O qual ela fazia questão de deixar por último, enquanto decidia se levaria ou não.
Já havia conferido todas as janelas. Estavam todas fechadas. Tal como a única cortina que havia. Nada haveria de escapar. Nem mesmo memórias. Ela preferia deixar muitas delas trancadas naquele apartamento para serem pisoteadas pelo entusiasmo fresco dos que viriam a morar lá.
Era um bom apartamento. Durante a tarde a luz, cada vez mais baixa, entrava abundante, até ser bloqueada pelas árvores da rua. Porém a abrupta solidão que assolou aquele espaço foi avassaladora. O ambiente vazio ecoava até os ruidosos pensamentos indesejados.  A mobília se fora, as pessoas se foram. Qualquer som emitido rebateria em toda a dureza das superfícies até chegar e morrer em sua pele, suas roupas, seu pequeno colchão.
Veio-me à mente, assistindo a cena de da janela da sala, no prédio vizinho: “Deve ser fácil ir embora, quando há pouco, ou quase nada, a ser deixado para trás”. Cria, inocentemente, que tudo que havia em volta, por mais que amasse, se tornaria uma raiz. Como dos meus pés começassem a brotar vinhas e cipós, emaranhando em volta de tudo e todos. O mesmo aconteceria com todos os que viviam comigo. Seria um nó que prenderia, mesmo que com certo carinho, no estado inerte. Tanta reflexão me iludia da real idiotice deste pensamento. Ir embora é sempre algo dramático.
Ouvi a porta atingir o batente. Como dentro do apartamento, no final de noite os sons viajavam livres pelos corredores formados pelos prédios, rebatendo na dureza inerente à cidade. Para procurar as chaves nos bolsos, ela deixou o último item no piso de cimento do quintal.
O pequeno ramo de alfazema crescia forte do pequeno vaso de plástico. Não deixaria para trás seu pequeno tesouro. Era um bom ouvinte o ramo de alfazema. Para ele os segredos eram contados, as canções eram cantadas. Ela olhava a planta no chão duro e tinha certeza que algo viria para mudar para sempre a sua vida.
Ela achou as chaves no bolso esquerdo da jaqueta. Estava frio naquela noite e o sereno castigava o rosto. O metal escorregava fechadura adentro e o ruído dos pequenos mecanismos foi o grande ultimato da noite.
Ela fechava a porta de casa uma última vez.