quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Subconsciente

Caminhava sem rumo aparente, vagueando por entre árvores muito verdes e folhosas. O calor úmido grudava em seus braços e pernas e o cheiro de musgo irritava o nariz. Não sabia como chegara ali, assim como as vezes anteriores, mas conhecia bem o lugar onde fora parar. 

Seguiu pelo caminho de chão batido, aberto por ele mesmo anos antes, até chegar ao limite da vasta floresta. E lá estava ela: a pequena cerca de madeira. 

Com um misto de ansiedade e culpa deu passos afobados tentando alcança-la, olhando para os lados, como uma criança com medo de ser pega em flagrante em meio a uma travessura. 

- Eu não faria isto se fosse você. - O aviso veio rápido e certeiro, fazendo com que seus pés congelassem no lugar. 

O dono da voz rouca e baixa era um rapaz encostado na parede. Seus olhos estavam cobertos pela aba de um chapéu preto fosco e seu sorriso era contido. Todo seu corpo estava imóvel, exceto pelo seu dedo polegar, que subia e descia ritmicamente, acompanhado do tilintar e do brilho dourado da moeda lançada por ele.  

Fitou-o por um longo tempo, sem saber se começava a se explicar ou simplesmente voltava por onde veio. Sem chegar a conclusão alguma, apenas ficou em silêncio. 

- Eu sabia que você iria voltar. 

- Você vai me impedir? - Os olhos verdes fitavam apreensivos o estranho guardião a sua frente. Ele tinha a sua altura e, pelo que conseguia ver apesar do escuro, seu peso não devia ser muito diferente também. E mesmo tendo quase certeza destas duas coisas algo não o deixava partir para cima do desconhecido para lutar por seu direito de ir e vir. Ou simplesmente sair correndo e pular a dita da cerca. 

- Você precisa mesmo passar? 

Por um momento hesitou. Precisava mesmo? Por que estava aqui? Precisava estar neste lugar? 

- Sim. - Respondeu carregando toda a certeza que não tinha naquelas três letras. 

Um sorriso mais aberto, carregando algo que ele não conseguia identificar surgiu nos lábios do estranho. Decepção? Pena?

- Pois bem. Então eu proponho um jogo. Você escolhe o lado da moeda e eu jogo. Pula a cerca quem acertar. 

Aquele jogo lhe pareceu absurdo mas, ao mesmo tempo, veio carregado de uma certeza. A vitória.

- Cara. - Respondeu com convicção. 

O entranho apenas assentiu e jogou a moeda sem delongas, como se também já soubesse o resultado. Seus dedos a pegaram ainda no ar e, sem conferir, deu um passo ao lado, em sinal de permissão. 

Satisfeito consigo mesmo ele inclinou a cabeça em agradecimento e seguiu em frente. A cerca de arame farpado cortou sua mão e braços, mas ele continuou mesmo assim.  A medida em que ia avançando suas indagações não faziam mais sentido. Não importava saber se devia estar ali. Se voltar não teria sido melhor. Aquele lugar lhe era estranhamente familiar e acolhedor. 

Ao longe olhos verdes brilhantes observavam o garoto por debaixo da aba do chapéu preto fosco. 

- Não precisa agradecer. Não é como se eu pudesse te impedir. Nos impedir. - Pensativo, colocou a mão no bolso e fitou o vazio. Lá seus dedos encontraram a moeda limpa de ambos os lados. Sem cara nem coroa. 

Com um sorriso triste ele observou o garoto seguindo seu caminho escuridão adentro. Mergulhando e afundando cada vez mais no mar de lembranças que deveria esquecer. Sufocando no passado que não deveria ser lembrado. Remoendo uma a uma, as memórias que prometera deixar para trás. 

- Só mais esta vez. - Sussurrou, como se pedisse desculpas para o estranho familiar do outro lado da cerca.