sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Duas Montanhas

– Não sejamos precipitados. Vamos pensar bem nisso antes de fazer qualquer coisa.

As pessoas que ouviam encontravam-se num vale entre duas altas montanhas. Aquele que falava havia sido apontado como o guerreiro de visão mais aguçada, escolhido pelos outros para ir até o alto das montanhas e vigiar a aproximação de inimigos.

– Tem que ser você – outro guerreiro, de visão não tão privilegiada, disse. – Você é o melhor de nós.

– Mas não sou infalível. Se eu for para o topo de uma das montanhas, enxergarei muito longe, mas serei incapaz ver o que se aproxima por detrás da outra.

– Então precisamos de mais alguém no topo da outra montanha – sugeriu uma mulher que se encontrava perto.

– Isso cobriria ambos os flancos, mas e se os exércitos inimigos subornassem um de nós com dinheiro e poder? Grandes recompensas nas mãos de apenas uma pessoa podem ser altamente corruptíveis. Confiariam em nós cegamente mesmo sabendo disso?

Várias vozes se levantaram em protesto, pois muitas pessoas confiavam na coragem, retidão e lealdade do guerreiro que falava, e poderiam apontar outros igualmente valorosos. O guerreiro falou novamente:

– E se nós morrermos, um a um, pelo tempo ou pela espada? Confiarão tão cegamente assim nas pessoas que tomarem nosso lugar no topo das montanhas?

As pessoas começaram a cochichar entre si. Os argumentos dele se tornavam cada vez mais difíceis de contestar. Um jovenzinho ainda sem pelo no rosto se ergueu nas pontas dos pés para se fazer ouvir, numa voz esganiçada?

– O que sugere então? Se não estamos seguros confiando em um nem em dois guerreiros, o que podemos fazer?

– Venham todos até o alto da montanha comigo, assim poderão ver por si mesmos quando o inimigo se aproxima. Assim não precisarão confiar na palavra de ninguém, saberão com certeza o que existe do outro lado das montanhas e poderão reagir prontamente quando o perigo se apresentar.

Muitas pessoas cochicharam receosas, mas decidiram seguir as palavras do guerreiro.

E suas palavras se provaram verdadeiras, pois os inimigos atacaram de todas as direções, pelas encostas das montanhas e até invadindo o vale que um dia habitaram, e os moradores das montanhas foram capazes de se defender de todos graças a sua visão privilegiada.

Mas os ganhos daquele povo não foram meramente estratégicos. Eles também passaram a conhecer um pedaço do mundo que antes lhes era desconhecido. Em vez de dividi-los em suas opiniões, aquilo os fortaleceu, pois, percebendo as diferenças que existiam além de cada montanha, foram capazes de enxergar as semelhanças que os uniam.

Logo os laços daquele povo não se restringiam apenas às duas montanhas. Todos os povos que viviam próximos das nuvens se aliaram a eles. Muitos dos que viviam nos vales começaram a migrar para o alto, desejosos de partilhar daquela prosperidade. Em pouco tempo as alianças se tornaram tão numerosas que não havia mais inimigos nos vales. Apesar de cada topo de montanha ter suas peculiaridades devido à cultura do povo que a habitava, ali, do alto, só eram capazes de enxergar o quanto a outra montanha era parecida com a sua: uma elevação no terreno coroada por uma cidade. Uma visão tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexa, sabendo que eram espelhados nessa visão aos olhos dos outros.

E tudo que foi preciso para começar aquela grandiosa aliança foi um povo com um líder corajoso, que nunca se voluntariou como tal, e duas montanhas.