sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Peças

Às vezes, a vida é como uma criança brincalhona. Ela prega algumas peças na gente, geralmente inofensivas, e todos saem rindo no final. Outras vezes, porém, ela é uma criança cruel e mimada, passando por cima das expectativas e desejos das pessoas com total indiferença. Desastres não a comovem, e ela segue seu curso sem sequer dar uma rápida espiada no que ficou para trás.

Eu estava ficando para trás.

Não me entendam errado. Tive uma vida bastante interessante até aqui. Ri da maioria das peripécias da vida, construindo a minha volta a existência que eu queria: estudos, pesquisas, invenções. Dediquei minha vida a construir coisas, juntar partes menores e inertes para criar objetos novos e práticos. Considero que me saí muito bem ao longo dos anos. Mas a vida tem um fraco por tragédias.

Ou talvez seja por ironias. Quem pode dizer com certeza a diferença entre os dois quando se trata dessa senhora-criança? Se pudesse olhá-la nos olhos agora, eu a esbofetearia para que aprendesse a ter mais consideração pelas pessoas. Mas duvido que funcionasse.

Se era tragédia ou ironia que se lançava sobre mim naquele momento, realmente pouco importava. Eu chorava e ria; ou melhor, chorava porque ria. E nem podia enxugar minhas lágrimas apropriadamente, pois me faltavam uma mão e um braço inteiro. Partes menores de mim que agora jaziam inertes no chão. Meus instrumentos de trabalho, e instrumentos das brincadeiras da vida, foram-se assim, num show de pirotecnia digno dos mais famosos teatros.

Eu ria. Nunca tive a pretensão de ser artista.

"É isso o que me resta agora?"

As palavras saíram débeis de meus lábios. Nem sei se realmente emitiram som ou se ecoaram apenas na minha cabeça. É incrível como a percepção se alterava no fim da peça. Tudo um truque de luzes e fumaça, certamente. Definitivamente. Ah, a vida!, essa diretora exigente e perfeccionista. Talvez ela não fosse uma criança, no final das contas.

– Eu o encontrei! Ele está aqui!

– Rápido, tire os escombros de cima dele!

– Alguém chame um médico, agora!

Tolos! Não mexam no cenário, deixem a peça terminar! Deixem que a cortina se feche enquanto a platéia está rindo. Não se importem com as lágrimas, era isso que a diretora queria desde o começo.