domingo, 13 de setembro de 2015

Pequenas Aventuras

Escolheu cuidadosamente entre as roupas e calçados os que cabiam na pequena trouxa dobrada. Não era muito, uma vez que o espaço também era dividido com os outros pertences essenciais. Antes de dar o nó, revisou-os: uma calça, duas blusas e um moletom. As meias colocou mais de um par. Sujavam mais facilmente. 

Em uma sacola menor, acomodada ao lado das roupas, estavam os pertences mais importantes, acumulados ao longo dos seus onze anos de vida. Um game boy color roxo transparente, três fitas pequenas e uma caixinha com seis pilhas. Um livro (tentara colocar mais de um mas pesaram demais), dois gibis que ainda faltavam ler e seu caderninho de anotações. 

Após uma ultima olhada deu o nó e fechou a trouxa feita com seu lençol de cama. Colocou uma das mãos no bolso e tirou de la um pacote fechado. Acumulara um total de vinte e seis reais ao longo de seu ultimo ano, economizados com esforço, deixando de tomar sorvetes e comprar balas e doces de amendoim. Este dinheiro agora serviria para uma causa muito maior: compraria bolachas para sobreviver a jornada e pilhas para seu game boy. Teria de cuidar com os ladrões. 

Conferiu tudo e deu uma ultima olhada em seu quarto. Iria sentir saudade dali. Mas ja não podia mais ficar. Queria explorar, conhecer coisas novas. Não tinha mais tempo para ficar em um só lugar. Não tinha tempo para tarefas de casa e provas escolares. Limpou os olhos marejados com as costas da mão e seguiu a passos firmes em direção a sua pequena fuga. 

O mais silenciosamente que pode caminhou até a garagem. Lá, sua bicicleta já estava preparada. Amarrou a trouxa na garupa e abriu o portão sem rodeios. Quando já se preparava para fechá-lo ouviu uma voz alta e firme que fez suas pernas tremerem:

- Tá saindo? Pode voltar que a janta já ta pronta. 

Fechava e saia correndo? Quanto tempo iria demorar para a sua mãe perceber que não estava mais ali? Estava frio, devia ter levado um casaco. Hesitou. Uma onda de pensamentos invadiu sua cabeça. Seus pés queriam partir para desbravar o desconhecido e sua cabeça pensava em desculpas para não ir. 

A decisão final veio, porém, de um ronco alto de seu estômago. O cheiro do jantar aos poucos ficava mais forte, se misturando ao ar gelado da noite. Estava faminto. 

Guardou a bicicleta e fechou o portão. Que mal havia jantar antes da sua longa jornada? Saco vazio não para em pé, como dizia sua avó. Estava decidido. Jantaria e partiria. Mas estava frio. E se chovesse?

Escondeu a trouxa em um canto e seguiu para a cozinha. Não faria mal adiar sua jornada em algumas horas. Ou talvez dias. 

Deveria levar um casado na próxima também, nunca se sabe.