sábado, 26 de setembro de 2015

Sobre tesouros e relógios

As horas seguem e a reunião na casa dos avós segue para aquele momento que o assunto acaba estão dando risada de qualquer bobagem que aparece na televisão. Cada um gargalha mais alto do que quem está do lado e a antiga cozinha vibra com a animação.

Sentado meio de lado está o avô.  Quieto num canto do sofá da sala. Já havia desistido de tentar decifrar qualquer coisa que viesse daquela turba de vozes fazia um tempo, então ficava apenas esperando tudo se acalmar novamente.

O avô gostava de sentar sempre naquele lugar. Havia uma cômoda perto onde havia tudo que ele precisava, evitando o sofrido movimento de se levantar. Sempre havia uma garrafa com água, seu lenço, o controle remoto do rádio e uma caixa chaveada.

As risadas não acabavam nunca e o momento de contemplação daquilo já se tornava longo demais. Queria que acabasse aquele encontro para poder ligar sua vitrola e ouvir algum dos discos que foi acumulando ao longo dos anos.

Isso pode soar meio amargo da parte dele, mas pode acreditar, ele amava a família. Porém naquele ponto já estavam em planos totalmente diferentes. O plano da luz onde seus descendentes teimavam em se esconder dele era inalcançável. Os anos na sombra o cansaram e não havia muita energia para tentar mais.

De um momento para o outro, Nicholas, seu neto mais novo, atravessou o vão da porta, vindo da cozinha, acendeu a luz e foi em direção ao avô. Pediu desculpas por estar longe por tanto tempo.  Perguntou como estavam as coisas. Contou as novidades da escola. Escondeu com a sua voz fina e frágil, de um garoto de seis anos, toda aquela gargalhada pujante que sobrava na cozinha.

O alívio do avô era tamanho que ele precisou retribuir:

“Pega pro vô aqui no bolso do meu colete uma pequena bolsa de pano”

O menino obedeceu, pegou a bolsinha de veludo marrom, com uma pequena corda amarela, que o avô escondia no bolso direito daquele colete cinza surrado que ele adorava usar sob o paletó. Dava leves tapinhas por fora do bolso todas as vezes que saia, apenas para se certificar da presença do pequeno volume.

Nicholas abriu atento o nó meio solto e tirou uma chave empoeirada de dentro do pacotinho. Era uma chave bastante normal, sem enfeite, sem nada de exuberante. O menino deu a chave na mão do avô, mas este pediu para que o neto continuasse com ela. Virou para a cômoda e pegou a velha caixa chaveada.

“Fazem alguns anos que abro, só toma cuidado que a chave dá uma emperrada no começo”

O menino se virou bem com a chave e com a caixa aberta não entendeu muito bem o que encontrou logo de cara.  Havia alguns relógios e um porta-retratos virado para o fundo da caixa. Aqueles relógios eram estranhos. Sobras de uma época que o menino ainda não era vivo. Digitais, com um pequeno botão em cada lateral, um acionava o cronômetro, e o outro ligava uma fraca luz que não adiantava muita coisa.

O avô estava acostumado a dar para seus netos relógios de quando em quando e esse era um dos últimos. Pelo menos há uns quinze ou vinte anos atrás, ele recebia de volta sorrisos dos pequenos netos. Todos adoravam o presente. Mas Nicholas não havia entendido muito o propósito daquele negócio. Pegou o smartphone do pai que estava no seu bolso e checou se a hora estava certa.

Esse troço não sabe nem que estamos no horário de verão”, pensou o menino, meio confuso com a hora de diferença.

O avô tomou o braço do menino e colocou o relógio com carinho no seu braço. E subitamente ele entendeu o que havia acontecido quando o avô deixou escapar:

“É acho que esse foi o último...”

O sorriso que o menino soltou foi escondido, mas o abraço demorado que o acompanhou foi tudo que o avô precisava para saber que a resposta era a esperada.

O menino ficou um tempo abraçado no avô e de repente veio uma imagem na sua cabeça. O porta-retratos virado para baixo. Ele estava velho. Parecia ter sobrevivido algumas décadas de umidade lá dentro daquela caixa. As bordas levemente mofadas eram a prova disso. O menino pegou a caixa antes que o avô a fechasse e guardasse a chave de volta no saquinho de veludo.

Virando o porta-retratos avistou um papel velho, esbranquiçado, com alguns amassados espalhados por toda a suposta fotografia. O avô percebendo que o menino estava com o objeto em mãos esperou para ver a reação que viria. Porem o menino permaneceu em silêncio, sem entender nada. O relógio foi algo muito mais fácil para a mente da criança desvendar. O papel desbotado não dizia nada.

Eu era bem parecido com seu pai, né?”, perguntou impaciente o avô.

O menino não sabia o que dizer. Simplesmente não sabia.

A velha fotografia que o avô guardava com um tesouro quase que centenário não tinha mais nada a dizer. Os filhos e os netos mais velhos nunca tiveram a curiosidade de tirá-lo do fundo da caixa chaveada, sempre ficavam muito entretidos com seus relógios novos e legais. Como a vó já havia partido há alguns bons anos não haveria mais ninguém para saber ou mesmo contar como era a paisagem da rua de chão batido onde o pequeno Alvim jogava bola de pano.

Era muita confusão para um menino de seis anos.

O avô pegou o porta-retratos com cuidado, fitou-o por um tempo, lembrando de tudo como era antes, acariciou o vidro e guardou o seu precioso tesouro no fundo da caixa, virado para baixo. Guardou os outros 2 relógios em cima. Os três objetos ficariam ali guardados para sempre. O avô jamais abriria a caixa novamente. E mesmo se daqui algumas décadas alguém resolvesse abrir, o tesouro permaneceria perdido.

Para sempre