terça-feira, 1 de março de 2016

A Madrugada

Salve! Salve!, a madrugada!

Encontramo-nos aqui novamente para brindar à noite estrelada. A lua meio vazia enche-nos de nostalgia com as luzes do passado a preencher nossos olhos. Quantos não buscaram nas curvas côncavas e convexas suas respostas tortas para perguntas corretas? Quantos as encontraram? Quantos não encontraram nada? E quão amargo me é o pensamento ao me dar conta de que houveram aqueles que nunca sequer questionaram.

Mas a noite é jovem e fazemos aqui um brinde. Um brinde à noite estrelada, é o que me dizem. Chamaram-me para discursar, embora não haja em mim uma só palavra que me valha. Em meia vida, tudo que plantei foram incertezas. De uma vida inteira, tudo que colhi foram meias-mentiras. Do além vida, espero com falsas esperanças uma silhueta da verdade, mesmo que embaçada, que me será mais doce que qualquer realidade.

Salve a madrugada!

Pois nas horas miúdas tudo muda. A noite se aquieta, os vivos parecem que morrem, os mortos parecem que falam. O mundo se torna pulsantemente cinza, contradizendo o vermelho encarnado da vida com todas as sombras do passado. "Tolices" é o que se ouve no vento. Ele é cinza e não nos revela o alvo de seu julgamento, como é de se esperar.

Salve o tempo da madrugada!

Nela as horas congelam. As veias vermelhas de momento num piscar viram areia na ampulheta. O instante que enche este copo se derrama inexoravelmente em tons de sépia pulverizada. E depois não é mais nada, nunca foi, ao mesmo tempo que é tudo quanto há. Nada seria importante se não houvesse a madrugada para eternizar os grãos de areia.

Salve-me na madrugada!