terça-feira, 15 de março de 2016

Histórias Perdidas

Passos abafados rasgando o chão e diversas vozes misturadas como uma estação de rádio mal sintonizada recepcionavam os recém-chegados a Estação da Cruz. Sempre abarrotada, ela possuía o mais variado tipo de transeuntes: senhoras curvadas sobre suas revistas, vendedores ambulantes de todos os tipos, mães arrastando os filhos pelos braços e gritando para não saírem de perto e diversos tipos de passageiros, desde homens engravatados a estudantes voltando para a faculdade.  

Andou cautelosamente, parando apenas para retirar a passagem na bilheteria automática. Se sentia dentro de um filme antigo ruim, daqueles que você abaixa o volume da televisão e deixa passando apenas para não se sentir sozinho em casa. Apesar de saber tudo o que acontecia a sua volta, nada parecia real ou próximo a ele. Nada ali condizia com sua ansiedade pungente, apenas seus olhos vagando errantes pela estação de embarque.  

O imponente relógio da estação indicava precisamente os três minutos que teria para subir as escadas do trem. A mão esquerda estava amortecida devido a força descomunal que tinha aplicado para carregar sua bagagem de meio quilo. Já a outra segurava o bilhete, menor que sua palma, agora ensopado em suor. Seus dedos apertavam a pequena folha em um movimento repetido, como se quisessem apagar as palavras ali presentes e não deixar nenhuma evidência de sua breve existência. 

Ninguém parecia notar a cena do pequeno rapaz em seu momento de agonia. Ninguém além de duas figuras sentadas próximas a banca de doces.

- Você acha que ele vai entrar? - A mais alta delas falou. Seus dedos tamborilavam dentro dos bolsos do sobretudo. 

Ao seu lado, uma mulher se concentrava em separar fios de costura que estavam emaranhados dentro de uma caixinha. - Não gosto de especulações - Respondeu vagamente, sem prestar realmente atenção. 

- Não seja sem graça. Eu aposto que ele vai voltar para casa. - O rapaz ao lado dela parecia animado, esperando ansioso pelo próximo passo do garotinho.

Como se estivesse ouvindo as indagações, o relógio se moveu, acompanhado de um longo e agudo assobio de trem. E, a partir disto, vários acontecimentos se desdobraram: 

O menino correu a curta distância até o trem e com um impulso, deu um passo a frente, agarrou o ferro lateral e subiu. No mesmo momento em que seus pés tocaram o piso interno, seu estômago se contorceu, como se uma pedra afundasse lenta e dolorosamente nele. Seus pés giraram em direção a estação e com a mesma determinação que entrara segundos antes, pulou para fora no momento em que sentiu a porta fechando a suas costas. Caiu de joelhos, a dormência tomando conta de seu corpo. 

- Parece que eu ganhei. - Levantou satisfeito da cadeira, esticou as costas e se agachou de cócoras, examinando o chão. 

A sua frente não existia mais o chão duro de piso surrado da estação. Havia um pequeno deserto particular com sua areia fina dançando sob seus olhos. Com o dedo desenhou uma encruzilhada, e a examinou por alguns instantes. Decidido, com a palma da mão, apagou o caminho da esquerda e de cima e levantou. Seu pequeno deserto desapareceu, deixando apenas um L dourado onde havia antes uma cruz. 

- Ainda bem que eu não apostei. - A mulher esperou ele terminar para então escolher um fio entre o emaranhado. Analisou-o por alguns segundos e então colocou-o na palma da mão. 

Como se alguém estivesse desenhando, primeiro um circulo dourado se formou ao redor do fio e depois várias linhas retas o cortaram. O desenho final lembrava muito um leme com vários símbolos antigos e indecifráveis flutuando ao seu redor. 

Aproximou o dedo e o circulo girou engolindo o fio. Ela continuou girando sozinha e cada vez mais rápido e então começou a crescer em um enorme clarão. Dentro dele silhuetas dançavam. Algumas delas ficavam mais claras, outras mais escuras. Cenários borrados se dissipavam e outros apareciam. Era uma tela de um pintor indeciso que desistia de sua obra e começava outra logo em seguida. Histórias e mais histórias sendo apagadas e reescritas. 

O espetáculo durou poucos segundos e então o clarão se intensificou mais uma vez e sumiu entre as mãos da mulher.

Ela guardou o fio de volta na caixa e se levantou. O homem se espreguiçou e olhou para onde o pequeno filme havia passado há pouco. 

- É engraçado o peso das decisões. Cada encruzilhada tem infinitos desdobramentos. Um telefonema, uma viagem repentina, uma palavra atravessada. 

- Um trem perdido. - A mulher completou - E tem gente que ainda acredita em destino.