terça-feira, 26 de abril de 2016

Epidemia

Este ano, todos os aniversários estão cancelados.

Existir deixou de ser algo especial. De fato, aqueles que ainda não nasceram estão adiando sua escolha, embora ainda seja exigido deles uma cota mínima de nascimentos para cobrir a demanda de acidentes, camisinhas furadas e "O que foi que eu fiz depois da oitava tequila?"

Depois que todos os jornais anunciaram as recentes pesquisas acerca da existência, celebrações de qualquer tipo deixaram de ser comemoradas. Aparentemente, todo aquele que é vivo está fadado a sofrer mazelas incontáveis durante a vida, para no final se juntar às estatísticas que atestam que 98% das pessoas tem algum arrependimento amargo a assombrá-los nos segundos finais, ou então sofrerem de uma morte repentina e fisicamente dolorosa. Em adição a isto, o ato de estar vivo é repudiado pelos conhecidos do indivíduo, pois este sempre aparece quando não é chamado.

Revoltas foram registradas por todo o país. Os manifestantes culpam a gestão atual por terem tornado a existência insuportável e exigem que sejam tomadas providências e assumidas as devidas responsabilidades. O governo se pronunciou esta manhã declarando que existir é um ato democrático e previsto em constituição, não podendo ser anulado ou revogado.

Depois de longas análises, especialistas concordam que a existência, apesar de indesejável, é inevitável uma vez que o indivíduo tenha apresentado os primeiros sintomas. A morte está sendo estudada como cura, mas por enquanto permanece sendo apenas uma medida paliativa uma vez que é impossível apagar totalmente as memórias e registros gerados pela existência das pessoas.

Até novas atualizações no assunto, todos os aniversários, festas, bolos com velas e presentes estão proibidos. Com essas medidas, tem-se a esperança de que a existência caia no esquecimento, amenizando o problema.