quarta-feira, 13 de abril de 2016

O outro lado

Montou sua casa onde o rio se estreita. No alto de uma colina longa que margeia. Poder ver o outro lado criava a agradável ilusão de poder atravessar o rio. De poder atravessar o mundo.

O gelo parece firme e o sol forte vespertino fazia tudo parecer mais calmo. As vozes chamavam do outro lado. Vozes inexistentes, tais quais as raízes que o puxavam para o leito do rio.

A seiva velha que ela trazia de solos longínquos era como droga que semeia loucura em uma mente uma vez aventureira. Os galhos alimentados dos devaneios balançavam, lançando folhas para serem carregadas por um vento austral que jamais houvera existido. As folhas secas e duras ficavam caídas, esperando para serem esmagadas pelo solado firme do par de botas que desciam a colina.

A relva ciliar, congelada tal como a superfície do rio, era quebrada formando uma trilha. Um caminho que morreria onde o gelo e a margem brigavam por metros a mais. Um caminho que morreria na beira do rio.

Foi necessário um passo. Um derradeiro passo.

O gelo era frágil demais.

E sob a fina camada vítrea o turbilhão corria frenético e impiedoso. Cruelmente quase congelante. As rachaduras se multiplicavam como o vazio e como o medo. Como o frio que subia e congelava a espinha vindo do pouco de agua que atravessou a costura velha das botas deixando frios pés, corpo e alma.

Ele construiu sua casa onde o rio se estreitava. Mas não se estreitava o bastante.

O outro lado do rio era longe demais.
O outro lado do mundo era longe demais.

O outro lado nunca esteve tão perto.