quinta-feira, 12 de maio de 2016

Culpa

Caminhei em passos arrastados pela prisão, aproveitando meus últimos segundos de liberdade. Sempre imaginei o Departamento dos Esquecidos como uma prisão dos filmes de piratas: suja, barulhenta e cheia de infratores esfarrapados com uma garrafa de rum na mão. 

A verdade é que aquilo ali era exatamente o oposto. Um corredor longo, bem iluminado e muito, muito silencioso. As celas tinham portas de vidro, mas algo me dizia que só era possível ver de fora pra dentro. Não possuía fechadura, apenas um painel iluminado. Dei alguns passos discretos e certeiros e me aproximei dele. 

Era apenas um numero.


Estes números são para identificar os prisioneiros? - Minha voz saiu menos confiante do que eu esperava, denunciando toda aquela farsa de “não me importo em estar aqui”. 

A moça atrás de mim deu um suspiro longo e cansado ao ouvir a pergunta e então respondeu pausadamente, como se eu não conseguisse entender sentenças com mais de três palavras. 

- É uma porcentagem. 

Do que? Foi a pergunta que entalou na minha garganta meio segundo depois. Mas não precisou sair, a resposta veio junto aos próximos passos. 

Cinquenta, sessenta, trinta e cinco. Os prisioneiros com números maiores pareciam mais espertos e “vivos”. Não sei se vivos era a palavra exata para descrever. Conforme o número diminuía a pessoa se tornava menos visível, como se ela se fundisse ao fundo e fosse deixando de existir. 

Deixar de existir. Era isto que estava acontecendo comigo? A condenação tinha vindo horas após minha tia, única parente viva até então, morrer subitamente.

“Samuel Evans você não existe mais. Não existe memória a qual esteja profundamente vinculado, não existem laços afetivos ou relacionamentos que exijam sua presença aqui. Você não é mais necessário nesta sociedade. Você perdeu seu direito de existir.” - Foram as únicas palavras que ouvi antes de ser arrastado para a prisão. 

- Próxima a esquerda. - A voz atrás de mim me arrancou dos meus devaneios e me jogou para a dura e imediata realidade. 

Caminhei mais alguns passos e então parei, encarando o lugar. Era vazio e frio e não tinha sinais de que eu veria mais alguém pelo resto da vida depois de entrar ali. Relutante, dei alguns passos em direção ao único objeto dentro do cubículo, um banco de plástico. Antes de sentar, porém, encarei mais uma vez a carrasco e vi ela inserir um número no painel. Noventa por cento. 

- Quanto tempo demora até chegar no zero?

Ela me encarou sem expressão, provavelmente ponderando se valia a pena responder. Passaram alguns segundos até ela decidir que eu era um moribundo e merecia algumas últimas palavras: 

- Isto depende de quem você teve contato nos últimos dias. O quão profundo era o seu laço com estas pessoas. Pelo seu contador - aprontou o objeto pendurado em meu peito - não vai chegar a uma semana. 

Mas é claro que chegaria. Eu não dava dois dias para desmontarem minha mesa e jogarem fora meus pertences. Provavelmente o Lucas, da mesa do lado, ficaria com as minhas canetas. Ele vivia roubando elas e achava que eu não percebia. Talvez o cara do café lembrasse de mim. Talvez não. Quantas pessoas pediam expresso e bolinho de chocolate meio-amargo todo dia? Acho que não era tão incomum. 

Minhas lembranças foram varridas por um longo e assombroso bip, que foi seguido por um barulho de descompressor de ar. A porta estava sendo fechada. 

Neste momentos todas minhas dúvidas e incertezas brotaram e eu quis sair correndo e gritar ou me jogar pela fresta cada vez menor da porta a minha frente. A mistura de sentimentos e euforia deu lugar rapidamente a uma única pergunta que importava no momento. 

- E se eu quiser continuar existindo? - Gritei. As palavras raspavam como navalhas. 

Creio que faltava apenas meio centímetro para fechar, o que me permitiu ouvir uma ultima resposta:

- Isto não cabe a você. 

E a porta se fechou com um clique suave. E então veio o silêncio. A única coisa que eu conseguia ver de dentro era o mesmo número do painel, projetado na porta recém fechada. 

Oitenta e sete por cento. Mais alguém esqueceu de mim. Em mais algum lugar eu deixei de existir. 

Sentei no banco e fechei os olhos. Eu não ia deixar de existir. Isto dependeria de mim, certo? A contagem não vai zerar. Eles vão ter que me tirar daqui. 

Eu não vou deixar de existir. Eles vão ter que me tirar daqui. 

Eu não vou deixar de existir, certo?

As palavras ressoavam em sua cabeça junto ao corredor silencioso.