quarta-feira, 29 de junho de 2016

Lacunas

"Um homem entra num bar. Suas roupas estavam molhadas da chuva que caía lá fora. Os jeans ensopados pareciam mais maltratados do que realmente eram. Estava na moda dos joelhos rasgados. Já os tênis, esses sim sabiam o que era andar. Parado sob o beiral da porta, abaixou o capuz do moletom verde-musgo que usava sob a jaqueta de brim. Esperou um pouco a chuva das suas roupas se acumular no chão, sondando o ambiente com olhos escuros e velados que combinavam de forma incômoda com o sorriso casual em seus lábios. Ele então andou até o bar, pediu uma cerveja, pagou com algumas notas molhadas e voltou para a chuva indiferente do lado de fora."

A Menina leu e releu o trecho, olhando de relance entre uma frase e outra para o amigo, que esperava sua opinião com ansiedade. Ela olhou o verso da página e, um pouco confusa, disse:

– É isso?

– Sim! – o Menino respondeu com o peito estufado.

– Cadê o resto?

– Que resto?

– O fim da história. Ou o começo dela. Não da pra ter certeza que parte é essa.

– Então, esse é o momento em que o leitor entra. Eu venho com as palavras e você com a imaginação.

– Mas como eu vou imaginar qualquer coisa com tão poucas palavras? Por que o homem não tinha um guarda-chuva? Por que ele só tomou uma cerveja? Por que era importante saber que o moletom era verde? Por que ele não esperou a chuva passar antes de sair? No que ele estava pensando para seu sorriso ser tão perturbador?!

– Como você gostaria que eu respondesse essas perguntas?

– Sei lá! A história é sua, você que termine.

– Mas a história não é só minha, é de todos que a leem.

– Isso não faz sentido algum.

Com um suspiro frustrado, o Menino pegou seu caderno de rascunhos e deu meia volta.