sexta-feira, 10 de junho de 2016

Sonhar demais

A reunião com os pais estava demorada na sala da diretora enquanto o menino, encolhido na ponta de uma longarina, olhava para dentro através do vidro da porta fechada, sem poder escutar nada. Os olhares tensos dos 3 eram tudo o que havia para ser decifrado. Suas notas não eram nada boas, então ele sabia que coisa boa não podia ser.

O papel sobre a mesa comprovava o medo da criança. Ao lado dos três, dos quatros,  dos dois e meios, estava a anotação em tinta vermelha de caneta: “Sonhador demais”.

Podia até ser uma exposição mais abstrata para algo psicológico interno, mas olhando assim por cima, até que poderia se dizer que era verdade. Tudo se tornava gatilho para que a fantasia tomasse conta. Haviam animais correndo pelos escritos da professora no quadro. Os números dos exercícios incompletos do caderno de matemática dançavam pelo papel. As árvores cochichavam entre si segredos no canteiro da rua de trás. E também em casa, as listras papel de parede do seu quarto eram em uma praia cujos castelos de areia eram os mais lindos que poderia haver. Como estudar enquanto todos os bondes que passavam fora o chamavam para brincar a cada cinco minutos.

As chamadas das professoras eram um anzol que o trazia para a realidade da  mesma maneira que rasgava as bochechas de um peixe para fisgá-lo. Eram constantes e todos já estavam cansados disso.
A diretora, pois, teve que dar atenção ao caso. E o plano estava elaborado. Ela olhava os cantos do papel, que estava sob o boletim, como se pudesse vislumbrar tudo realizado. Ao revelá-lo, as reações não eram bem as que ela esperava. Havia um pouco de medo em face de uma medida tão extrema. Mas os pais, pensando em um futuro para a criança, aceitaram. Não queriam ver o menino virando cobrador do bonde, vendedor de vassouras em uma esquerda qualquer, vender coco na praia de Copacabana.  O menino havia de estudar, datilografar, ser culto. Estar nas altas cúpulas da capital do Brasil.

O colete tinha pequenos eletrodos e uma bateria próxima às costas. A cada tantos, ele soltava uma pequena carga sobre a criança, trazendo-a para o mundo real. Nada demais, segundo a diretora. O menino, magro e desajeitado, tomaria rumo de encontro aos destinos traçados pelos pais.

O menino estava apreensivo quando chegaram seus pais, com uma caixa nas mãos, e um olhar ao mesmo tempo amedrontado e assustador. A partir da manhã seguinte, o menino já chegava na escola com sua nova vestimenta. Era relativamente discreta. Era colocada por baixo do paletó da escola. A cada 5 minutos, um choque. Não doía, apenas coçava um pouco. A coceira era seguida por um movimento involuntário com a cabeça, como alguém despertando.

Após as primeiras semanas o corpo já foi acostumando aos pequenos choques. Estava sempre alerta. A resposta positiva dos seus professores fazia, a cada dia, o menino menos se importar com o tratamento de choque. E nesta toada os anos foram passando.  Suas notas aumentavam bimestralmente. Ele era assertivo nos cálculos e nas datas. Terminou a escola como um ótimo aluno. Nos eventos sociais da família, ele era o orgulho da família. Os amigos dos pais, cujos filhos contavam do desempenho do menino – mesmo que sem saber do artifício elétrico – olhavam para o jovem como um pequeno gênio.

Anos passaram e José, o menino que desaprendeu a sonhar, estava lá, de malas prontas. Sairia para Brasília daqui algumas horas. Era tudo uma loucura. Novidades aguardavam em uma cidade feita para ser o centro do mundo. Sua cadeira estava lá, esperando em uma das salas projetadas pelo Oscar, um grande amigo da família.

O ônibus partiu.

Os dias passaram.

Os telegramas vinham.

Os meses passaram.

Os telegramas vinham.

Mas, certo dia, pararam de vir.

Não havia notícias de José havia dias.

O pai decidiu partir para Brasília imediatamente. A mãe perguntava-se a cada instante o que poderia ter acontecido. Ele nunca deixou de dar notícias.

Chegando em Brasília sob um calor infernal, não foi perdido tempo. O casal entrou em um taxi e seguiu diretamente para a esplanada. Seguiu para o edifício do Ministério do Interior. Subiram as escadas e deram com um corredor longo. Na penúltima porta havia uma placa na qual estava escrito: “Secretário Geral da SUDESUL: Dr. José Alves Filho”.

Bateram na porta e não tiveram resposta. Abriram, pois, e se depararam com uma mesa vazia, uma cadeira executiva e uma chave de armário. Testaram a chave em todos os lugares, porém sem sucesso. Ao ir embora, chegando ao térreo da edificação, se depararam com um armário próximo ao balcão da recepção. Era um guarda-volumes. Havia dezenas de portas, mas o número era certo. Encaixaram a chave na porta numero 47, o número da sala visitada, e após o movimento de abertura, a luz penetrou no armário e revelou uma caixa envolta em papel pardo. Sobre a caixa, não havia nome, não havia data ou algo que pudesse identificar.

Havia apenas um pequeno envelope colado no canto inferior.  

Dentro do envelope, um papel escrito em caligrafia perfeita e claramente reconhecível:

“Me desculpem, mas preciso sonhar novamente.”

Pegaram a caixa e, sem abrir, jogaram na lagoa para jamais ser aberta.
Jamais ouviram falar no doutor José Alves Filho. Talvez tenha ido para algum lugar viver a vida. Ser um cobrador de ônibus.

...

Ou, quem sabe, se tornar um ótimo vendedor de vassouras.