terça-feira, 12 de julho de 2016

Paralelepípedos

Era sempre quando a porta abria e um burburinho se espalhava pelo trem que ele sabia que havia chegado ao seu destino. Passagem era uma cidade usada quase que exclusivamente pela sua estação com conexão para a capital.

Ela quase não recebia turistas, apenas alguns desavisados que saiam da estação por engano e rapidamente retornavam. Era monótona e nada tinha para ver segundo as más línguas. Mas não para ele, que todos os dias desembarcava ali. Chegava pontualmente uma hora antes do por do sol.  

Seu caminho era o mesmo todas as vezes, a estreita rua que levava até a praça. Nela, vários pequenos aglomerados se movimentavam. Cachorros, gatos, vendedores e malabaristas dividiam o espaço de uma ruela, se misturando aos aromas dos diversos produtos expostos. 

Com passos cautelosos, atravessava a multidão carregando apenas uma maleta enferrujada. Seus olhos observavam todos os detalhes com o maior interesse. A sua frente, reconhecia a figura desajustada do senhor Garcia, com seu bigode volumoso e rosto rechonchudo. Ele arrastava sua carroça sob os paralelepípedos tortos, tentando levar os ovos em segurança a mercearia ao final da rua. 

Quase rente ao meio-fio as barraquinhas se apinhavam com os mais diversos tipos de produtos. Laura vendia essências, o que fazia de sua tenda uma das mais agradáveis. Vários frascos ficavam expostos lado a lado, com líquidos de espessura e cores diferentes. Alguns brilhavam, outros evaporavam quando abertos e exalavam uma onda doce e suave. Tinham os mais encorpados, que lembravam um pouco as noites de teatro com senhoras idosas e seus casacos pesados. Outro, mais leve e cítrico, remetia a memória da sua professora da 4 série, a dona Brigida e seu coque impecável.

Competindo com os aromas de Laura, a tenda ao lado era de um senhor magrelo, alto e com cabelos grisalhos. Carlos vendia pães. Pães de todos os tipos e sabores. Seus dedos ágeis embrulhavam as massinhas crocantes recém saídas do forno em um papel branco e grosso. Ele fazia isto todos os dias, de forma meticulosa.

As outras tendas que seguiam eram as mais variadas. A de tecidos era de um homem eufórico que estava sempre discutindo preço com algum comprador. A de doces era de uma senhora bondosa que vendia o melhor caramelo quente com nozes dali e ela sempre dava amostras generosas para quem estivesse passando. 

Mais a frente e quase no final da ruela, estava Lucas o malabarista. Ele vestia a camiseta listrada de sempre, aquela que era enorme e parecia emprestada de algum amigo duas vezes maior que ele. Ao ver o garotinho mirrado com a maleta enferrujada, deu um largo sorriso e um aceno de mãos rápido o suficiente para pegar as bolinhas flamejantes que voltavam em direção ao chão. O garoto sorriu e o cumprimentou e então continuou seu caminho em direção a fonte iluminada. Já era quase noite. 

Colocou a maleta no chão, em cima do último degrau, e, com um pequeno clique na parte de baixo, ela se abriu prontamente. Para quem estivesse olhando a cena de longe teria certeza que deixara passar algum momento: em frente ao menino agora se encontrava um teatro quase de seu tamanho, inteiro montado. Em seguida acendeu um varal de luz, que trouxe a vida o canário daquela noite: um castelo em um reino distante. 

Enquanto retirava alguns bonecos de dentro de uma caixa menor, a vitrola começou a tocar sua música, aquela que todos já conheciam e consideravam a chamada para o espetáculo. Assim, a pequena praça foi se enchendo a medida que os comerciantes encerravam as atividades. O teatro de Marcos era o evento mais esperado do dia. As pessoas saíam de sua rotina monótona e podiam ver, ouvir e viver outras histórias. 

O cenário de hoje era a sala do rei, onde ele colocou um boneco de bigode volumoso e rosto rechonchudo no trono. O rei, desajustado, segurava a mão da rainha ao seu lado, uma mulher alta que se destacava por seus perfumes e essências. Além deles, tinham o comandante: um senhor magrelo, alto, com cabelos grisalhos e extremamente habilidoso com as mãos e o conselheiro, que era o que mais falava ali. Ele estava sempre negociando tudo com qualquer pessoa.

Marcos olhou para a platéia sonhadora, fascinados com as histórias de cada um dos personagens de um reino distante e inventado. Sorrindo, colocou os últimos dois bonecos: a rainha mãe, uma senhora bondosa e generosa que tinha paixão por caramelo com nozes e o príncipe da corte, um rapaz desleixado mas muito habilidoso, que vestia um longo casaco listrado, duas vezes maior que ele.