quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Em direção aos deuses

O dia ainda daria sinais de sua graça quando a trilha começava a se tornar mais árdua. O caminho, já não muito bem delimitado seguia na direção norte, a partir do último vilarejo que fazia parte das cercanias do burgo onde vivia o jovem. Fazia já um certo tempo que os últimos camponeses, que começavam cedo a sua lida, deixaram de compartilhar com ele o caminho estranhando a presença de uma pessoa com ar tão aristocrático, apesar das vestimentas discretas, fora das grandes estradas que levam aos outros grandes centros, bem pavimentadas e ladeadas por diversas estalagens que ofereciam conforto aos viajantes que passavam, por vezes, dias na estrada.

Este caminho partira dos muros da cidade, mais precisamente da porta noroeste e seguia serpenteando pelos pequenos povoados e os ligaria às planícies do norte onde as plantações se estendem a leste e a oeste da estrada a perder de vista. Terminando as terras aráveis esta rota se tornaria cada vez menos utilizada, as marcas de carros de boi desapareciam e as pegadas mais esparsas de caçadores seguiam em direção à floresta e às encostas.

A trilha da floresta era pouco utilizada pois o passo das montanhas era muitas milhas a leste, e fora desta localidade, chegar ao outro lado envolveria trechos de escalada, portanto não haviam marcações de seu trajeto. Restava ao jovem se orientar pelo seu senso de direção e pelo relevo, que indicava que a floresta subiria as encostas até o ponto que o terreno se tornaria rochoso demais e a mata densa com pequenas clareiras, de onde era possível contemplar as constelações emolduradas por uma moldura negra de copas de pinheiros e de bordos, dava lugar a árvores esparsas. Além das últimas árvores que teriam conseguido achar um caminho nos vãos da rocha e crescer não havia mais nem sinal de algo como estrada delimitada e a trilha era aquela que era possível seguir entre as grandes pedras que se erguiam de ambos os lados.

“Valeria a pena seguir tudo isso?” Se perguntava o rapaz a cada dez ou quinze metros de caminhada. Desde pequeno haviam lhe contado sobre o caminho para o Templo, assim como desde pequenos os anciãos de hoje em dia haviam ouvido de seus pais que, por sua vez, haviam ouvido dos anciãos de sua época. Eram grandes os feitos de quem um dia teria conseguido chegar e muitas eram as respostas para as quais ele precisava da sabedoria estelar daqueles que o aguardavam no alto. Ele conseguia sentir o olhar pesado vindo em sua direção tornando cada passo mais duro e cada metro mais longo. À medida que ele se aproximava do destino o trabalho se tornaria mais e mais hercúleo, porém retornar não seria uma opção. Muitos eram os que perseguiam sua família e o que acontecia nas cidades em volta não era muito animador. Fora dos muros a vida continuava vagarosa e banal, porém no interior a animosidade crescia a cada tanto e os aliados, um dia responsáveis por manter a ordem, já não eram tão facilmente controláveis. Dia após dia, notícias de templos derrubados, altares profanados, edifícios destruídos chegavam das cidades em volta e aqueles que um dia mandavam estavam cada vez mais encurralados em suas ‘tocas’, como diziam alto os arautos nas praças. Sair na calada da noite foi a única opção para o rapaz.

Talvez não eram respostas que ele procurava, pensava ao subir com a ajuda das mãos em um rochedo e contemplar tudo o que havia ficado para trás. Os muros eram apenas um ponto à beira de sumir no horizonte e as planícies era banhada pelos raios de sol macios que vinham de sua esquerda nas primeiras horas da manhã. Talvez seria fugir. Talvez seria se esconder de tudo o que era acusado por causa do seu nome. E a mordomia de mais um dia como todos os outros fora trocada por um longo caminho que se desenhava às suas costas, montanha acima, com uma grandiosidade que sobrepujava todo o luxo de anos de palácio.

Lavou o rosto em um pequeno palmo de água de seu cantil e seguiu durante o resto do dia sem olhar para trás. O sol desenhava um arco sobre sua e começava a aquecer o outro lado de seu corpo à medida que ele saia dos vãos de pedra e chegava em locais mais abertos. A caminhada se desenvolvia lentamente até que o primeiro vale se desenhou em seu campo de visão, passou o restante das horas de sol descendo em direção àquela paisagem divinamente posta em seu caminho. A cada tanto olhava para um arbitrário no topo da cordilheira e agradecia por tudo o que via.

Ao final do dia, os raios agressivos dos últimos momentos do dia já não iluminavam que as paredes de pedra e as rochas que ficaram pelo caminho. Não havia mais muito sinal da planície, salvo em pequenos vãos de pedra, porém a cidade estaria encoberta ou já não estava mais ao alcance do olhar. O rapaz tirou de sua bolsa um pequeno pacote com comida, fez sua pequena ceia, diferentemente do farto banquete da noite anterior e adormeceu, esgotado, mas pela primeira vez em meses, tranquilo, sobre um cobertor disposto em uma pequena relva que crescera em um vale cortado por um veio d’água que vinha do degelo. Os paredões de pedra emanavam o calor acumulado pelas numerosas horas de sol diferentemente das paredes de pedra que ficavam sombreadas pelos telhados e pelos muros da cidadela. Nada jamais havia sido desta maneira em tantos anos e esta pequena liberdade deveria ser aproveitada, pelo menos enquanto ela durar. Enquanto durarem a comida, o fôlego e as forças. No alto, pares de olhos disfarçados de estrelas em um céu completamente aberto observavam satisfeitos o caminhar das coisas.


“Ele está cada vez mais próximo”, confabulavam entre si.