quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Raízes flutuantes

Aquele era o gosto do inferno: amargo a ponto de retorcer a arcada dentária e ainda doce o suficiente para te convencer a dar o primeiro gole.

– Nada mal – disse o Viajante, contendo a ânsia e a vontade de tossir. – Mas acho que desce melhor com um pouco de ácido sulfúrico.

– Oras, não pode estar tão ruim assim! – replicou o barman, provando um gole do próprio drink. Seu rosto ficou vermelho e ele não conseguiu segurar o ataque de tosse. Depois de quase expelir o pulmão duas vezes, conseguiu enfim dizer: – Diabos mordam as barbas dos macacos profetas! Por que é que te fiz tomar esse veneno?

– Porque fui tolo o suficiente para dizer que gostava de experimentar coisas novas.

– É, isso pode ser perigoso perto de fracassos criativos como eu. Mas acho que deve ser um bom jeito de se viver.

– E é!

– Diga, o que posso fazer pra compensar pelo meu experimento? Não posso perder um freguês novo assim.

– Não se sinta mal, eu que pedi. Além disso, o ambiente aqui já compensa. A companhia é divertida, e a música muito boa.

O olhar do Viajante cruzou discretamente o salão até o outro canto. Uma moça de cabelos longos que caíam como as ondas de um mar noturno até sua cintura estava sentada numa banqueta, tocando violão e cantando.

O barman conhecia muito bem aquele olhar admirado para cair nas lisonjas do rapaz.

– A música, sei. Se quiser, posso te apresentar a ela.

– Apres… Não! Não precisa. Estou só de passagem pela cidade.

– Parece que você viaja bastante.

– Desde que saí de casa, não parei num mesmo lugar por mais que alguns dias. Estou há… nossa!, tanto tempo na estrada que já nem sei mais o que é ter casa.

– Me parece que você está precisando experimentar um estilo de vida novo.

O Viajante não respondeu. Não porque tivesse achado o homem intrometido; apenas não sabia o que dizer. Por tanto tempo viveu sob a alcunha de Viajante que nem sabia mais o som de seu nome. Quantas décadas haviam se passado? Talvez oito. Ou um dúzia. Doze décadas eram mais que um século. É, talvez já fizesse mais de um século que ele perambulava por esse mundo.

"É muito tempo," pensou. "E ainda não vi o mundo inteiro. Quando terminar, terei que dar outra volta, do jeito que as coisas estão mudando."

Por fora ele continuava o mesmo rapazote verde que prometera à memória da avó explorar todos os lugares que ela não pôde visitar em vida. Porém, o tempo estava passando, a tecnologia deixava tudo diferente, e os lugares que mudavam constantemente conseguiam apenas transformá-lo por dentro. A promessa havia se transformado numa bênção, mas naquela noite em particular ele a sentia pesar como uma maldição.

– Oi! Você é novo por aqui?

Perdido do jeito que estava no tempo e na memória, o Viajante não havia percebido que a música havia parado. Agora que a dona daquela voz de anjo estava parada a seu lado, com seus olhos verdes mirando-o com curiosidade e interesse, ele se sentia ainda mais perdido.

– É, sou – conseguiu responder, se forçando a voltar para o presente. – É a primeira vez que venho nesse bar. Nessa cidade, aliás.

– De onde você veio?

– De longe. Muito longe.

– Dá pra perceber pelo sotaque. Meu nome é Miriam, e o seu?

"Eu poderia experimentar algo diferente dessa vez. Eu poderia voltar ao meu passado, quando o tempo ainda fluía."

– Ian.

Ián – ela repetiu com o sotaque aberto do lugar, sorrindo como se fosse o som mais bonito do mundo. Pelo menos essa era a impressão que o Viajante tinha quando ela sorria. – Vai ficar muito tempo na cidade?

– Você que me diga. O que é "muito tempo" pra você?