quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O autômato romancista (Ana Pereira)


Os painéis coloridos piscavam, anunciando as últimas novidades da grande feira tecnológica. Cada estande tentava chamar a atenção para si próprio através de diversas artimanhas visuais, sonoras e psicodélicas, evitando os jalecos, ternos e apresentações considerados fora de moda. Entre eles, um estande específico parecia atrair o público em ritmo crescente.

Nele, uma criança de olhos vendados e sorriso inabalável digitava avidamente e sem hesitação em um teclado translúcido, as letras se juntando rapidamente uma à outra na fina tela em frente a ela. Através de uma simples projeção ao lado do estande, o público podia acompanhar o trabalho em tempo real e observar mesmerizado a criação ao vivo de…

Bem, ainda não estava bem claro do que se tratava aquilo ou o que aqueles parágrafos habilmente construídos queriam dizer, mas que era fantástico, isso não se podia negar.

Venham, venham! Conheçam o primeiro autômato romancista da história! Diziam os cartazes luminosos e os responsáveis pelo estande de tempos em tempos, convidando as pessoas a se aproximarem e oferecendo um fio de explicação para o significado daquela criança tão enérgica em sua incansável labuta.

Eventualmente, mais detalhes eram liberados aos interessados o bastante para perguntar ou ler os folhetos e cartazes disponíveis. A criança, uma Inteligência Artificial recentemente desenvolvida, seria capaz de criar obras inteiras a partir de diretrizes básicas. Apenas inserindo um cartão contendo o gênero da história, tamanho aproximado e mídia desejada, tudo estaria pronto em 24 horas sem nenhum questionamento adicional ou problemas de atraso. O fim do bloqueio criativo, anunciava entusiasticamente um dos painéis.

Por décadas a Inteligência Artificial ficou restrita a tarefas repetitivas, perigosas e basicamente tudo que os humanos preferiam evitar. O próximo passo seria a utilização de IAs avançadíssimas para atividades complexas e criativas, desbravando territórios completamente desconhecidos pela sociedade.

A plateia, afoita com a novidade e encantada com a criança, logo começou a conversar sobre as possibilidades de conceito tão incrível. Entre entusiastas e temerosos, apoiadores e críticos, todos tinham em comum a pouca atenção dada às linhas escritas pela diligente IA até então, a despeito da sua clara e ostensiva exibição.

Entre eles, dois espectadores observando a certa distância também regavam seus próprios questionamentos.

Isso parece perigoso, não é mesmo? Um deles expressou, olhar fixo na criança androide que parecia totalmente alheia à atenção e debates sobre sua existência.

Sim, com certeza! O colega concordou. Não sabemos o que pode ser dos humanos, se cada vez mais dermos poder e consciência para IAs…

Eu quis dizer perigoso para ela.

O primeiro esclareceu em voz baixa, fitando a profunda inexpressividade da criatura destinada a imitar e replicar padrões de comportamento complexos, dando voz a emoções e à criatividade de uma vida que jamais seria a sua própria. À imagem e semelhança e à mercê de seus mestres.

Não sabemos o que pode ser das IAs, se cada vez mais tentarmos forçá-las a serem humanas...

Ana Pereira