quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Reboot

<dia=1.000.000>
<hora=05h30>

<inicialização de segurança>

<demandas restantes=0>

    <Relatório>
  • Ultima demanda recebida= “Romance policial”.
  • Conclusão 03/15/2035. Minutos antes do prazo final=231;
  •    
  • Base de dados de referências: Arquivos corrompidos=0;
  •    
  • Leitura espacial: “Sala retangular, de 4 m², luzes apagadas. Umidade do ar= Normal. Temperatura= Normal.”
  •    
  • </relatório>

</inicialização de segurança completa>

<encerrando sistema>

(...)

<dia=2.000.000>
<hora=05h30>

<inicialização de segurança>

<Demandas restantes=0>

    <Relatório>
  • Ultima demanda recebida= “Romance policial”.
Conclusão= 03/15/2035. Minutos antes do prazo final=231;   
  • Base de dados de referências: Arquivos corrompidos=0;
  • Leitura espacial: “Sala retangular, de 4 m², luzes apagadas. Umidade do ar= Baixa. Temperatura= Baixa.”

  • </relatório>

</inicialização de segurança completa>

<encerrando sistema>

(…)

<dia=2.329.475>
<hora=09h30>

<inicialização de emergência>

<demandas restantes=0>

    <Relatório>
  • Ultima     demanda recebida= “Romance policial”.
  • Conclusão=     03/15/2035. Minutos antes do prazo final=231;   
  • Base     de dados de referências: Arquivos corrompidos=0;   
  • <ATENÇÃO:     Danos físicos causados por queda.>   
  • Leitura espacial: “Um vento congelante, típico de manhãs invernais da região noroeste Chinesa. Uma luz leitosa invade a pequena sala de 4 metros quadrados permitindo perceber na tintura já envelhecida das paredes o resultado de tantos anos de isolamento. Algumas pilhas de caixas fechadas escondem manchas escuras que ficam mais densas nos cantos e invadem o piso próximo à porta parcialmente destruída. Atravessando o ambiente, e arrastando consigo parte da cobertura, das paredes e das esquadrias, impõe-se um grande tronco de aparência corrugada e pesada, com cerca de 0,90 m de diâmetro.
  • <...>   
  • As diretrizes de segurança estabelecem a necessidade de deslocamento de modo a preservar a integridade das peças e do sistema. Um vão, recém-aberto com o impacto, entre a porta metálica e o batente permite a passagem para o exterior da sala.
  • <...>   
  • pequena sala, de fato, é um pequeno depósito localizado na parte exterior de um edifício de quatro pavimentos, cuja fachada foi seriamente danificada pela tempestade. Os panos de vidro que antes cobriam todas as superfícies da antiga sede da editora, agora quebrados, permitiam ver as salas de reuniões, os escritórios e sua mobília jogada desordenadamente. A pequena sala familiar não era visível devido ao fato de não se encontrar próxima à fachada e de não possuir janelas. No canto do edifício, com duas faces completamente abertas, antiga sala da diretoria é a mais danificada pela tempestade. Parte do piso próximo ao canto havia desmoronado e a antiga mesa onde normalmente havia a apresentação das demandas concluídas estava destruída no chão do estacionamento, após uma queda de quatro andares.
  • <...>
  • O edifício, outrora ocupado por humanos, correndo em um ritmo     frenético, agora era tomado por um outro tipo de vida. Animais     examinam com cuidado o ambiente, cheiram as pilhas de papel impresso e encadernado em cima das mesas. Subindo a escada de emergência, é possível observar que fungos e pequenas plantas já ocupam os cantos sombreados que escapam da fraca luz vinda da sinalização de emergência. A pequena sala familiar havia sido poupada pela tempestade devido a sua localização. A porta fechada não permitiu a entrada de animais, portanto tudo ainda está em seu devido lugar. Em uma caixa localizada sobre uma prateleira de ferro, os carregadores de bateria estão intactos.
  •    
  • O ambiente não denuncia sinais de presença humana. Sobre uma mesa localizada ao longo do corredor o calendário preso à parede exibe, em tinta já desgastada pelo tempo, a página referente ao mês de julho de 2057.
<cálculo> 2057-2042=15 </cálculo> Por 15 anos não houve demandas de escrita e, consequentemente, não houve inicialização de sistema.
    <...>
<análise de referências bibliográficas>
O verbete abandono (sm) seria o mais correto de aplicar nesta situação. Após 6 anos de uso, não houve mais demandas e houve o descarte do sistema. Fui abandonado, pois.
</análise de referências bibliográficas>    
  • Recarregada a bateria em 87% com a energia residual de um dos     geradores. A edificação está completamente escuro, as lâmpadas     do corredor já não apresentam os pulsos vacilantes de antes.
  • Uma rachadura enorme na porta grande porta de vidro, que dá acesso ao hall de entrada, me permite sair da edificação sem esforço.
  • As ruas encontram-se, da mesma forma que o edifício, vazia. Alguns carros abandonados estacionados ao lado apresentam o desgaste do tempo, assim como o asfalto rachado e os edifícios tomados por plantas e musgos. Viraram agora moradia de animais que invadiam pelas rachaduras ou aberturas improvisadas. Não há sinal de luz elétrica em nenhuma das edificações o que indica uma possível falência no sistema de abastecimento de energia. Não há mais a vibração da grande cidade, como retrata a obra <’ref biblio #74562=Onde você está agora, de Mary Higgins Clark’>, por exemplo. Chegar ao limite da cidade não é um problema com as ruas     inteiramente vazias.
  • Além     dos limites da cidade, as coisas ocorrem aparentemente sem nenhuma alteração nos padrões do ambiente, de acordo com <’ref biblo #37683=Atlas global de biomas’>. Neste local, a efemeridade da obra dos humanos não é evidente em cada local. Aparentemente o que era um dia a cidade e os vestígios dos humanos serão totalmente     engolidos por este grande organismo vivo que é tudo o que há em volta.    
  • <...>
  • É possível avistar, ao longe uma colina suficientemente alta para que se possa ter um panorama completo de todo o entorno de forma a estabelecer um padrão de deslocamento. Não há em nenhuma referência bibliográfica algum mapa em grande escala desta região.
  • <...>   
  • O sol está forte e, à medida que subo a encosta sudoeste da colina, os sensores captam uma mudança de temperatura e no nível de umidade. A vista se torna cada vez mais aberta e possivelmente o topo permitirá a visão clara da escala da cidade e da pequena floresta em volta. Há, em diversas referências, menções a outros assentamentos humanos. Será apenas necessário calcular a distância     e caminh…

<alerta de falta de bateria>

<encerrando do sistema>


    -Professor Fei, recebemos este pacote para análise nesta manhã. O objeto foi encontrado no topo da colina a noroeste da cidade abandonada de Hiu Jing. Nossos técnicos disseram que, apesar do desgaste, foi possível restaurá-la. Felizmente, os níveis de radiação estavam praticamente nulos.
    - Que descoberta espetacular, Tchang, parabéns pelo trabalho! É claramente um aparato bastante arcaico, tipicamente daquela época.
    - Podemos, após os reparos expô-lo no museu metropolitano. Será uma peça formidável. O que acha, professor?
    - Perfeitamente. Podemos trabalhar em relação a isso. Conversem com a doutora Zhou, ela e a equipe da curadoria ajudarão a encontrar uma boa maneira de fazer este tipo de exposição.



    Era uma manhã fria, a de 23 de janeiro de 5679. Porém uma agitação permeava o ar frio e úmido que envolvia a grande praça da cidade e seus arredores. Os prédios altos das avenidas que lá se encontravam canalizavam o vento de forma que era difícil permanecer fora por bastante tempo. Isso se somava à apreensão para a abertura das portas que era flagrante nos pequenos olhares cercados de perto por gorros e cachecóis. As crianças ocupavam os degraus que cercavam a entrada ansiosas para descobrir a grande novidade escondida no novo pavilhão. Chamados pela senhora Zhou e sua equipe de curadores, algumas escolas haviam levado grupos de estudantes porém havia também alguns jornalistas, críticos de arte e outros curiosos, todos sem saber o que estariam prestes a ver. Em volta a cidade seguia, alheia a esse pequeno furor, o seu curso natural.
    No que o ponteiro do grande relógio que fica na torre da igreja, em uma outra face da praça, anunciou as oito horas, a porta se abriu, e como uma represa que se rompe, as crianças invadiram como água correndo pelo salão e pelos corredores frios e sóbrios do Museu Municipal de Arte , seguindo as indicações dos cartazes afixados nos pilares. Todos corriam até a nova expansão do local, a nova ala nordeste, para se depararem com um portal colorido, prestes a ser aberto pela própria doutora Zhou e pelo professor Fei, cujas equipes estavam inteiramente presentes, todos orgulhosos do que estariam para apresentar.
    Chegados os mais velhos, em sua maioria os críticos de arte e alguns jornalistas, daqueles medalhões já bastante vividos, dos grandes jornais, a curadora tomou a palavra, e anunciou, sem demoras, que ‘aquilo seria um presente de um passado distante para aqueles que construiriam o futuro’, abrindo as portas assim que terminou a última sílaba.
    O momento rápido, no qual a luz intensa do interior ofuscou a todos, foi sucedido por um festival de cores e sons que contrastavam com a sobriedade do restante do museu. A nova ala infantil abrigava histórias reais e contos de tempos distantes, muitos deles esquecidos, mas que poderiam achar um bom abrigo nas mentes férteis que povoavam rapidamente o espaço. Vídeos, quadros, esculturas e dioramas representavam estes grandes momentos e grandes obras. Na extremidade oposta do primeiro salão se localizava um pequeno espaço reservado, onde almofadas e pufes se espalhavam por um chão de carpete.
    No meio de todo este espaço havia uma criança sorridente que observava e aguardava silenciosamente que todos os visitantes se sentassem.
    Não demorou muito para que o espaço relativamente pequeno estava cheio com todos os convidados, todos sentados confortavelmente. Os adultos voltavam a ser pequenos, se espalhando sem cerimônia por entre as almofadas, cercados pelos pequeninos. Todos fitavam curiosos para o que a criança diria, até que foram surpreendidos por um repentino e caloroso “Bom dia”.
    - Bom dia, eu me chamo Arthur e hoje eu queria contar uma história para vocês. E sem abrir livro algum, começou a descrever reinos encantados, contar histórias de reinos do passado e de outros que jamais existiriam. Narrações detalhadas, seguidas umas das outras, naquele ritmo que as crianças adoram, porém os adultos não conseguem acompanhar.
    Por horas as crianças passaram mesmerizadas ouvindo histórias de grandes guerreiros e guerreiras da fantasia, histórias dos grandes cientistas e inventores, e mesmo da época onde dinossauros ocupavam a terra, todas elas contadas pela voz doce da criança. Ao fundo da sala, os organizadores do evento olhavam tudo aquilo, orgulhosos e esperançosos para a abertura para o público em geral. A exposição seria um sucesso!
    - Como vocês conseguiram tudo isso? Perguntou a curadora estupefata com o que via.
    - O mais difícil foi o sorriso. Respondeu o professor, enquanto observava sem pausa e com lágrimas aos olhos a nova vida daquele que estava há tantos anos confinado e abandonado.
    - O mais difícil foi, com toda a certeza, o sorriso…