quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A Espera

– Só um momento, por favor.

– Está bem.

Depois de um clique e um bipe, o Moço ouviu uma música relaxante que, no inconsciente de todo ser humano, de imediato desperta um sentimento avesso de ansiedade e irritação. Reunindo todo o seu estoque de paciência, puxou uma cadeira para perto do telefone. Era um aparelho antigo, vermelho, que compensava a falta de mobilidade com uma charmosa sensação nostálgica. Na maioria dos dias, pelo menos.

Quinze minutos se passaram. A espera começava a ficar desconfortável. O Moço tentou se sentar de vários jeitos diferentes, mas a única posição confortável que não enroscava no fio espiralado era com os pés apoiados no encosto do sofá, fazendo todo o sangue descer para a cabeça. Depois de um tempo, até aquela pose acabou perdendo seu encanto e ele voltou a se sentar da forma convencional.

Quando a contagem das ripas no teto estava perto do fim, ouviu o som agudo de uma freada brusca seguida da cacofonia da batida. Tentou esticar ao máximo o fio do telefone, mas a janela mais próxima estava muito longe para ver o que havia acontecido na esquina. Um tempo depois de as buzinas terem se acalmado, a sirene de uma ambulância cresceu e parou no local do acidente. Minutos depois foi ligada novamente, e o Moço a ouviu desaparecer ao longe, grave e urgente.

Cansado de ouvir aquela música, correu até o quarto para pegar um dos livros que estava lendo naquela semana. Voltou correndo e grudou o telefone na orelha, apenas para descobrir que a melodia continuava no exato ponto em que ele a havia largado. Encaixou o aparelho como pôde entre o queixo e o peito para que o som não atrapalhasse muito a leitura e entregou-se às aventuras de Arséne Lupin.

Pouquíssimas coisas conseguiam fazer o Moço desviar a sua atenção de uma boa história, mas o som de cascos onde não deveria haver nenhum era uma dessas coisas. E o culpado por aquele som peculiar era, nada mais, nada menos, que um unicórnio da mais imaculada brancura que se pode imaginar. O belo animal atravessou a sala com passos lentos e olhos curiosos, sem saber ao certo de onde vinha ou para onde ia, como acontece com todo unicórnio num cenário urbano. Ele andou até a cozinha, mas o Moço tinha a impressão de que esse não era o seu destino final, por isso achou melhor não interromper seu caminho. Enquanto isso, a música no telefone era constante e monótona a ponto de quase ter se esquecido que estava ali, esperando que algum atendente se dignasse a encontrar a solução para o seu problema.

Prestes começar a parte em que o afamado ladrão revela como executou o seu roubo mais intrincado, o som de gritaria e falatório alto de crianças correndo pela rua irrompeu pela sala, quebrando a sua imersão. Instantes depois, um som grave e constante tomou conta da casa, parecendo vir de todos os lados. As janelas vibraram e um vento confuso invadiu a casa. O Moço ficou de pé no meio da sala sem saber o que fazer, ainda com o telefone pendurado na orelha. Foi então que ele viu uma sombra passar pela janela e, em seguida, o imenso objeto que a projetava: um enorme disco rodeado por luzes coloridas e piscantes sobrevoava a sua casa a poucos metros de altura. Paralisado de surpresa, tudo que o Moço podia fazer era observar ele se afastar da vizinhança como uma nuvem indiferente flutuando no céu; uma nuvem feita de metal, controlada por seres extraterrestres, provavelmente recheada de intenções bem mais complexas que uma nuvem comum, e que causava pânico por onde passava.

Tudo virou silêncio outra vez, exceto a musiquinha que vinha do outro lado do telefone.

Então, com um clique, até aquele som irritante parou e uma voz nasalada falou em seu ouvido:

– Alô. Ainda está aí, senhor?

– Si-sim! – O Moço respondeu, surpreso e aliviado. – Ainda estou aqui.

– Aguarde mais um momento, por favor.

Um clique e um bipe, e a música recomeçou.