quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Poeira

Os anos iam cada vez mais rápido vistos pelos olhos do rapaz moreno, alto de um metro e oitenta, sentado em um dos muitos bancos da praça central da cidade. De quando em quando ele, com um movimento discreto, olhava para os lados, observando quem vinha pelos caminhos que entremeavam os arbustos descuidadamente altos, porém sempre voltava à posição de origem, voltado para o nada, observando os segundos surgirem do vazio, tomarem forma como uma centelha, se tornarem palco da existência e depois se esvaecerem sem deixar rastros.
     Em alguns momentos, o olhar difuso, atravessava estes repetitivos ciclos de momentos, que apareciam e evaporavam no ar, para chegar nos muros de pedra do edifício antigo do banco da cidade. O muro subia cerca de dez metros, sendo mais rústico na base e mais delicado nos trechos superiores, onde pedras de um tom ligeiramente mais amarelado ladeavam lindamente as molduras das janelas dos escritórios, localizados no andar superior. Na parte central do peitoril, havia uma pedra maior, cuja forma fazia alusão ao antigo emblema da empresa, que há anos já não existe mais. Desde e a sua saída para uma nova sede, recém-construída, a duas quadras dali, a bela construção seria abandonada por longos anos.
    Ora ou outra apareceram aventureiros querendo revitalizar o antigo edifício, munidos sempre de ideias mirabolantes, mas que esbarravam em algo que parecia uma força que vinha daqueles muros, do coração de cada pedra. Algo sempre entrava no caminho destes que tentavam a sorte no local, dando nós nos planejamentos mais cautelosos e jogando por terra as numerosas planilhas que os sabidos de administração deixavam preparadas.
    Era como se o edifício quisesse permanecer abandonado. Estava velho demais para o ritmo do século XXI, com suas novas redes de informática, cabeamentos blindados. As ruas estavam barulhentas demais e a hibernação eterna parecia muito mais sedutora que a possibilidade de despertar e encarar este novo modo de vida entrando pela sua pesada porta giratória, empurrando as folhas que nunca giravam rápido o suficiente para quem entrava.
    O muro havia algo que atraia repetidas vezes o olhar de quem se dava ao tempo de contemplar. Era algo difícil de se explicar, algo nada científico. Um olhar cauteloso, porém não menos não-científico poderia perceber algo além das pedras. O tempo acumulava-se em suas ranhuras como que de maneira física. Aquelas pequenas partículas de tempo, estes segundos que brotavam do nada, flutuavam no ar o quanto poderiam em sua breve existência e grudavam nas rugosidades da parede de pedra. Estas estavam lá por tanto tempo que o próprio tempo se sentia confortável ao pousar suavemente sobre sua superfície conferindo a ela um caráter sobrenatural, aquele que nos toca quando estamos em tantos locais incríveis mesmo sem sabermos.
    Talvez ‘poeira’ seja uma maneira de descrever isso. Aquela poeira que se acumula nos antigos móveis da casa dos avós. Naquele pequeno aparador com algumas imagens religiosas, velas e fotos da família. A filha mais velha sempre está lá para limpar, mas passar o espanador apenas levanta a poeira pra que ela tenha o trabalho de achar seu caminho de volta para as pequenas representações do eterno. No canto do sofá, assistindo ao programa de domingo, a avó exibia também sua dose de tempo acumulada em suas rugas, em seu cabelo. Assim como o avô, arrumando o velho relógio cuco da família que insistia em adiantar cinco minutos o seu anúncio. Talvez seja isso que dá a eles e elas aquele ar de que são para sempre, de que estarão sempre ao nosso lado, esperando estarmos prontos pra que possam nos transmitir tudo o que sabem. Porém o tempo cobra o seu preço. Eles se vão mesmo que não estejamos jamais suficientemente prontos e tenhamos que, no final, aprender tudo sozinhos.
    Afinal não somos de pedra para ficarmos elegantemente exibindo nossa graça e nossa poeira pelos séculos, se sentindo sempre desajustados com a modernidade imediatista e sem alma, com a modernidade que teima sempre em passar um pano úmido por toda a casa, olhar com nojo para o pano ‘sujo’ e lavar toda essa eternidade na pia da lavanderia, olhando o tempo escorrer pelo ralo.
    Afinal não somos de pedra e temos que voltar ao trabalho depois do horário de almoço. O homem de metro e oitenta pega suas coisas e corre de volta para o prédio de vidro espelhado onde se localiza seu escritório. Volta com um belo sorriso no rosto e um ótimo novo hábito para esta meia hora que muitas vezes passa em branco. Passa tão rápido que não dá tempo nem de pegar poeira.