sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Luzes de Natal

Aquela era a época favorita do Menino. Todo ano ele contava ansiosamente os dias até dezembro, e depois contava as horas para a véspera da véspera do Natal.

Diferente das outras crianças da sua idade, ele não ficava eufórico para descobrir quais presentes ganharia nem para se empanturrar com a maravilhosa ceia que os pais preparavam juntos (e na qual ele estava começando a meter suas mãozinhas para ajudar). Não, esses momentos eram bons, mas não eram o melhor do Natal para o Menino. Para ele, a noite do dia vinte e três de dezembro era mais especial que todas as outras.

Era nessa noite que ele saía para passear com os pais para ver as luzes da cidade. Centenas de milhares de focos luminosos eram espalhados pelos telhados das casas, em trenós puxados por renas de plástico, arbustos, estrelas de arame e cascatas de luz — cada morador tentava chamar mais atenção que o outro, para o deleite dos olhos do Menino, que quase não piscava tentando absorver toda aquela ciranda de fadinhas luminosas de uma só vez.

Como todos os anos, depois do jantar ele, o pai, a mãe e Jojo, o cão da família, saíram para a caminhada arrastada e despreocupada sob as estrelas. Este ano, porém, elas não estavam ofuscadas pelas luzes da cidade, salvo os raros pontos em que um morador havia muito humildemente enfeitado sua cerca ou lambrequim.

— Essa seca estragou o natal — o Menino ouviu a mãe comentar depois de algumas quadras.

— Seca? É a crise! — seu pai retrucou. — Isso sim está fazendo as pessoas economizarem na marra.

— Bem, de qualquer jeito, estão gastando menos energia. Sem essa economia, já teríamos tido um apagão…

Aquela conversa continuou por muitos minutos e assuntos que pouco faziam sentido para o filho do casal.

Agora, seria de se esperar que o Menino tivesse ficado decepcionado com a falta de pisca-piscas e papais-noéis luminosos, mas não foi bem isso o que se passou Assim como as estrelas não haviam se ofuscado para as luzes de Natal, um outro conjunto de luzes que antes era mero pano de fundo agora lhe saltava aos olhos. Estavam em todas as casas, todas as fachadas, e ele ficou muito surpreso por nunca tê-las notado antes.

Através das janelas podia-se ver cômodos iluminados recortados por silhuetas difusas nas cortinas. Em algumas casas, as pessoas ainda jantavam; em outras, assistiam à televisão amontoadas no sofá; e em outras ainda, as luzes dos quartos revelavam a solitude momentânea de seus inquilinos, às vezes quebrada por algum contato virtual.

Aquelas luzes, antes diminutas em comparação à dança das fadinhas elétricas, agora mostravam as vidas que realmente davam significado àquela época do ano, aos festejos, às decorações e à troca de presentes. As casas pulsavam com as conversas e risadas que emanavam das formas escuras que se mexiam e interagiam pela luz das janelas, enchendo o peito do Menino com um calor indescritivelmente aconchegante.

Por muito tempo a cidade não sofreu períodos tão atribulados quanto aquele, mas as luzes de Natal nunca mais foram tão belas quanto naquele ano.