sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Migalhas

— Não gosto de ir na casa da Tia Ciça.

— Mas ela gosta de você, e sempre faz o bolo de fubá que você tanto gosta. Além disso, ela já está bem velha. Aproveite essas visitas enquanto pode.

— Eu não gosto de fubá…

— O que disse?

— Eu disse "tá bom, eu vou".

O bolo de fubá era realmente a melhor parte das visitas à casa da tia Cecília, mas o Menino preferia bolo de cenoura; era menos farelento.

Tia Ciça era, na verdade, a tia-avó de seu pai, mas toda a família a chamava assim porque ela havia "ficado pra titia". Já estava tão velha que nunca se lembrava do nome das crianças, e com frequência trocava os dos adultos. O Menino havia dito mais de uma vez que não gostava de bolo de fubá, mas por algum motivo a velha guardou na memória o oposto disso e, para sua grande frustração, agora todos achavam que aquele era o seu bolo favorito.

Quando chegaram à casa da senhorinha, o Menino torceu discretamente o nariz para o cheiro encardido do lugar. Tia Ciça não tinha gatos — de fato, nunca os tivera, — mas por alguma razão inexplicável a casa toda cheirava como se ali vivessem todos os siameses da cidade. Apenas um cômodo se salvava, que era a cozinha, que agora já estava perfumada pelo bolo de fubá assando no forno. Perto do restante da casa, aquele odor era até convidativo, e foi lá que o Menino se refugiou.

Envolta num xale de crochê grande demais para seu corpo franzino e enrugado, Tia Ciça enchia a chaleira de água para o chá. Porém, quando o Menino e o pai entraram na cozinha, levou um susto e derrubou tudo que estava segurando, espalhando água pelo piso.

O Menino quis se oferecer para ajudar, mas ficou paralisado ao ver as mãos da tia tremendo enquanto ela juntava a chaleira. Por algum motivo, nunca havia parado pra pensar em como os anos afetavam as pessoas e o que realmente significava ser velha, mas a visão daquelas mãos enrugadas e manchadas pareciam ser a personificação do próprio tempo. Como que um mero ruído de fundo, ouviu o pai se oferecendo para limpar tudo e preparar o lanche da tarde enquanto Tia Ciça descansava um pouco.

— Ei, menino, você me ouviu?

— Ãhm?

— Eu disse pra você fazer companhia pra Tia Ciça enquanto eu arrumo as coisas aqui.

— Nós podemos fazer uma caminhada — a velha sugeriu, forçando a atenção do menino a abandonar suas mãos por um instante. — Estou precisando esticar as pernas.

"Ela é tão velha," o Menino pensava estupefato, como se sua mente estivesse presa num loop infinito que nunca passava do ápice e deixava a mente suspensa de pernas para o ar. Teve a vaga noção de ter concordado com os adultos. Quando se deu conta, já estava com o sol estival a lhe queimar a testa a as bochechas numa rua a qual nunca havia botado os pés antes. Tia Ciça não falava muito além do seu habitual, apontando para casas aqui e ali e enumerando os moradores de destaque das últimas décadas. Seus passos eram vagarosos e determinados, como quem tem um compromisso importante a atender, mas nenhuma pressa.

Enquanto isso, o Menino a seguia com tropeços distraídos e inseguros, preso nos próprios devaneios. Demorou um pouco para perceber que a tia havia parado na frente de uma construção grande, porém modesta, de muro baixo e descascado.

— Eles vão demolir na semana que vem, dá pra acreditar? Parece que foi ontem mesmo que eu estava brincando de amarelinha no pátio.

Foi então que o Menino percebeu uma placa desbotada com o nome ilegível de uma escola. Não conseguia imaginar que aquela senhora corcunda, cheia de linhas onde se podia contar a passagem dos anos, um dia havia sido uma criança como ele. Apesar da sua imaginação não conseguir ir tão longe, o Menino aceitou que aquilo deveria ser verdade para todas as pessoas no mundo, até mesmo para as que haviam ficado pra titia.

— Olha, deixaram o portão aberto…

Nem mal havia terminado de falar, a velha senhora já atravessava o portão em questão. No mesmo instante, a mente do Menino acendeu vários alertas: talvez o lugar fosse ser demolido porque já não era mais seguro; seu pai vivia falando que Tia Ciça estava começando a ficar gagá e tinha receio que ela andasse sozinha por aí e se perdesse; ele ficaria de castigo por pelo menos um ano se perdesse a velha de vista.

Apesar de todas aquelas luzes piscando vermelhas em seu cérebro, o Menino não a chamou para que voltassem para casa. Havia alguma coisa no sorriso da velha que parecia puro e longínquo, e só aumentava à medida que ela se aproximava da escola. Mesmo sabendo que não era a coisa mais sensata a se fazer, o Menino apenas a acompanhou, observando atento os mínimos movimentos daquela teia epidérmica no rosto da tia onde estavam capturadas e expressas tantas memórias.

Logo percebeu que um dos seus medos era infundado: apesar de antiga, a escola ainda estava em boas condições, e muitas das salas ainda estavam inteiramente mobiliadas, apenas um tanto bagunçadas e empoeiradas. Aquilo refletia bem o estado da memória de Tia Ciça, pois não parecia haver sala ou corredor que não lhe recordasse algum professor ou colega, sempre atrelando alguma situação peculiar à pessoa.

— Era ali que eu me sentava quando tinha a sua idade, perto da janela — ela apontou para um espaço vazio numa das salas de aula iluminadas pela luz enviesada da tarde. — Toda segunda-feira minha mãe fazia bolo de fubá pra eu trazer de lanche, mas não aguentava esperar até o recreio. Eu escondia o bolo debaixo da carteira e beliscava aos bocadinhos sem a professora ver. Tinha que tomar muito cuidado pra não deixar nenhum farelo cair, senão era mandada pra diretoria. Acho que é por isso que até hoje como até a última migalha. Temos que aproveitar cada pedacinho. Mas você não gosta de bolo de fubá, não é mesmo?

Um sorriso sabichão acentuou as rugas em torno dos olhos da velha.

"Ela se lembra."

O Menino sorriu. Não sabia se deveria se sentir traído com aquela revelação ou honrado por ser o confidente daquele segredo. De qualquer forma, sentia que agora entendia a velha um pouco melhor.

— Sabe, tia, acho que eu gosto.