quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Tédio, Fórmica e Cortiça - Três atos de um fim de tarde


Era difícil manter a concentração naquele final de tarde de sexta-feira e a moça dividia seu intelecto entre inventar teorias para explicar a duração absurda daqueles últimos minutos e procurar padrões no painel de cortiça atrás do seu monitor. O olhar navegava com precisão os veios escuros, desviava dos alfinetes e dos rabiscos presos, avaliava a diferença de tonalidade entre os pequenos pedaços. O relevo começava a se delinear. Sombras e luz criavam cadeias de montanhas, os pequenos alfinetes eram pequenos vilarejos salpicados na aridez bege daquela terra. Beduínos seguiam com seus camelos enfileirados, carregando odres em barro, cheios do óleo perfumado extraído em uma região longínqua, cujos bosques de oliveira se desenhavam nos fundos dos vales.
O monitor preto, onde o cursor dançava sem propósito sobre o vazio deprimente emoldurado por linhas e hachuras coloridas, ficava desfocado no canto da vista, cobrindo parte desse universo, terras ermas por onde os grandes aventureiros da época ainda não haviam explorado. Ydraz, O Grande, também conhecido como o pai de todos, o primeiro desbravador a chegar, ainda jovem, nessas terras e descobrir os oásis ao redor dos quais as famílias se aglomeraram já há tantos séculos, havia conseguido chegar no topo das montanhas a oeste e, já no limite de suas forças, decidira não enfrentar o mar de areia que se estendia a perder de vista. Em todos os mapas, habilmente desenhados pelos notórios mestres cartógrafos de Mahÿr (grande cidade murada ao nordeste, delimitada pelo alfinete lilás), todo território a oeste dos montes era considerado ‘terra desconhecida’ e era representado em um grande plano preto. Em seu tempo, sempre cercado de crianças sentadas ao seu lado e com um grande sorriso, Ydraz contava como era estar de frente a tamanha imensidão. Todos os pequeninos saiam cheios de sonhos, que eram alimentados toda vez o explorador se aproximava dos oásis e, seguido por uma multidão de infantes, ia até um tronco caído ou uma pedra, onde se sentaria para contar em detalhes sua última jornada e, com sorte, um pouco das antigas histórias que guardava por detrás de um olhar sempre sereno.
Uma manhã, já por volta dos seus sessenta anos, o próprio desbravador foi atingido em cheio pelos sonhos que plantava nas pequenas mentes férteis, pegou um camelo e um de seus falcões, se preparou com esmero e partiu com as costas ao sol para ultrapassar quaisquer limites e finalmente descobrir o que haveria por trás do grande borrão preto, das linhas e hachuras coloridas. Todos esperavam notícias suas, especialmente os pequeninos e os cartógrafos, ansiosos para poder completar suas obras.
Ficaram a esperar.
O telefone toca e o som irritantemente agudo desperta os sentidos da moça. Atordoada com a voz de seu chefe dando instruções e fazendo observações sobre os trabalhos entregues, ela observava os desenhos na tela com um quê de espanto. O dia seguinte seria complicado. A voz do chefe, do outro lado da linha era interrompida por ‘sins’, ‘certos’ e ‘oks’ secos e sem muita vida, vindos da boca quase imóvel da jovem. Recebidas as informações, ainda com o telefone em mãos, seu olho desfocou do monitor e sua cabeça já partia novamente.
Na mesa em fórmica azul, próximo à base cinza do telefone, as mãos que traçam movimentos aleatórios estão cercadas por utensílios de trabalho. A esquadra de lápis, caneta, borracha, raspas de madeira, minas de borracha e um estilete afiado está próxima a abordar a pequena e indefesa embarcação. Em seu mastro magricela não há bandeira de país e o capitão da esquadra tem certeza que vai lucrar um bom bocado ‘negociando’ com mais esse navio mercante. Um homem amargo, esse capitão. Diferentemente de seu antecessor (e agora subalterno, devido a um jogo de influências no palácio), ele não era um homem do mar. Não tinha os cacoetes, e muito menos paciência para encarar uma guerra constante contra a falta do que fazer e o excesso de imprevistos característicos dos oceanos. Estava feliz em seu posto de conselheiro, quando foi tirado de suas funções para dar lugar a um filho mimado de um desafeto de longa data. “Iria matá-lo assim que possível”, jurava todas as manhãs. Passados os meses, a dureza foi tomando conta do homem e ele descontava toda ela em quem aparecia pela frente, remadores, vigias, e toda sorte de marujos de que ele dispunha. Para a alegria da tripulação, sempre aparecia algum barqueiro perdido para distrair o capitão e seu amargor.
Feita a abordagem, os soldados levaram o barqueiro, um tanto de carne seca e uma bolsa cheia de mapas e anotações. Entregaram o homem no convés principal da grande embarcação, diante dele estava o impávido capitão, com seu sorriso que misturava um ar de superioridade, a perspectiva do lucro fácil e aquele sadismo alimentado por cada um dos longos dias longe de seu posto no palácio.
Ele observava o homem vestido em roupas já gastas, com sua barba bastante esbranquiçada. Seus olhos, revelados com o arrancar abrupto de seu lenço da cabeça, eram de um tom claro de uma cor de mel. As pupilas do homem ainda se contraíam quando o capitão, irritado pela falta de aparentes manifestações de medo, se aproximou bruscamente tentando intimidá-lo.
Não daria certo. O homem já havia passado por tanta coisa e parecia que todas as suas aventuras estavam escritas nas linhas que se desenhavam em um rosto que, pela idade, deveria parecer mais cansado. Ele permanecia impávido diante do comandante que vociferava o quão ruim era a situação e qual era o preço para que permanecesse vivo, nada menos que toda a grande quantidade de mercadorias, ouro, prata, cobre e todos os outros metais usados para cunhagem de moedas pelos povos das cidades-estado mercantes que costeavam a baía. Porém ao meio da chuva de saliva que respingava em si, o homem moveu a cabeça em um gesto repentino para baixo. Porém, antes que os guardas imediatamente em volta tivessem tempo de sacar as armas surpresos com o movimento estranho e inesperado dada a postura inerte apresentada desde a abordagem, um grito agudo foi ouvido do céu. Do meio das nuvens densas, banhadas pela luz amarela rósea do Sol baixo matutino, surgiu uma sobra preta que descia rapidamente. Sem dar espaço para qualquer reação a ave fincou as garras no pescoço do comandante e atravessou em um rasante o convés com parte do sistema respiratório do homem pendurado, centímetros acima das cabeças dos galerianos, exibindo-os como uma carta de alforria.
Os guardas atônitos, com o ocorrido, foram despertados pelo som oco do corpo paramentado caindo duro na madeira e profundamente perturbados pelo aspecto visual do que acabara de acontecer, correram em direção à cabine principal, onde, alheios, os subcomandantes, homens fiéis ao seu líder foram agarrados, amarrados, e levados para o pequeno barco que ficaria flutuando parado sobre o pequeno mousepad no meio da mesa em fórmica azul.
O apito de hora cheia, emitido pelo antigo relógio de pulso da menina, foi o suficiente para que a moça aprumasse a postura e voltasse o olhar para o monitor. Seus colegas de trabalho se levantavam juntos e se despediam enquanto abriam a porta e partiam.
-Só não esquece de apagar a luz, já tomamos uma dura ontem. Dizia um deles.
Controles de horas preenchidos, computador desligado e luzes apagadas, a jovem se levantava para fechar as persianas. Voltando à mesa para pegar suas coisas, não resistiu e deu uma olhada no canto formado pela parede em cortiça e a mesa em fórmica, porém já não conseguia ver mais nada. Pegou sua bolsa e fechou a porta do escritório já escuro e tomou o elevador.
Na descida, porém, não conseguia deixar de imaginar Ydraz, já centenário, observava mais uma nova cidade que tomava forma à sua frente. Trechos de muros em pedra e de paliçadas cercavam construções baixas feitas em adobe e madeira. Ruelas estreitas, e cobertas com pergolados formavam uma rede sombreada que se espalhava por entre as construções. Pequenas fontes de água doce, que vinham de um rochedo próximo alimentavam fontes nas praças onde os antigos remadores e guardas, se misturavam com novos habitantes que chegavam das rotas marítimas orientais, em direção às grandes cidades do império, ainda distantes a oeste.
Hafir havia se tornado um porto bastante importante, sendo o elo entre diversas regiões de um continente difícil de se atravessar a pé. O pai de cidades contemplava o movimentado cais, construído em volta de duas carcaças de galés, de onde haviam tirado a madeira para construir. Haviam mantido alguns pedaços intactos para lembrarem sempre de seu desprezo pelos seus antigos líderes e donos. Longe da costa, grupos de mercadores chegavam de camelo de todas as direções, trazendo mercadorias exóticas que eram trocadas nas feiras que preenchiam as praças próximas ao embarcadouro.
Dentre esses tantos grupos, vinham também alguns da região de Mahÿr e das outras cidades dos oásis. Muitos anos passariam antes que ligassem as histórias e descobrissem o quão próximos eram esses povos. Ydraz, já não contava tantas histórias como antigamente, mas a descoberta de uma antiga arca, guardada pelo próprio explorador em uma gruta estreita e profunda no rochedo que ladeava a cidade foi o suficiente para ligarem todos os pontos. Mapas e diários de anos de viagem estavam todos ali, contando histórias de desde a fundação das cidades oásis até a contemplação do nascimento de Hafir, incluindo os anos entre a partida em direção ao deserto e a captura pelas galés. Mas as muitas histórias deste meio teriam que ficar para uma próxima tarde, por volta das 17h57.