quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Escolhas

Em seus tempos áureos e não tão remotos assim, a cidade do Orgulho brilhava como nenhuma outra. Cotada como uma das dez melhores para se viver, somente pessoas muito seletas conseguiam seu passe para o sonho de um terreno com grama bem aparada ou de um apartamento com vista para suas ruas douradas. 

Os turistas eram escassos, mas não por crise ou falta de interesse. Os orgulhosos - moradores nascidos ou erradicados por lá - passaram anos lutando para que a entrada de pessoas de fora fosse proibida. Depois de diversos plebiscitos fracassados, uma lei de - quase - comum acordo foi estabelecida permitindo que um número restrito de pessoas pudessem visitar a cidade. A verba de fora era importante também, mas ninguém queria admitir. 

Os sortudos que eram premiados com um visto temporário podiam passear por suas ruas de paralelepípedo cor de ouro e vislumbrar casas e lojas impecáveis, desde a pintura recém feita até o polimento do sino de prata que anunciava os visitantes. Tudo brilhava, reluzia. Nada estava fora do lugar. Os moradores tinham muito orgulho de sua cidade. 

Outra particularidade, que sempre chamava a atenção dos turistas, era um ornamento utilizado pelos cidadãos: um colar com várias pequenas bolinhas, de diversos tamanhos, que lembrava muito um terço. 

- Estou te dizendo que cada uma dessas perolazinhas tem seu significado.  O orgulhoso falou enquanto bebericava café quente de uma xícara de ágata perfeitamente ornamentada. 

O repórter olhava intrigado para a pequena bolinha entre seus dedos. Presa a ela seguiam várias outras, formando uma longa corrente cor de ouro velho. O colar era grande o suficiente para dar três voltas no pescoço do rapaz a sua frente. 

- Você está me dizendo que estas pérolas representam as suas escolhas.

- Na verdade são as minhas não-escolhas. 

- Não-escolhas?

- As escolhas que não realizei em prol de outras. 

O repórter acenou enquanto fazia anotações em meio aos rascunhos de seu bloquinho.

- Então vocês guardam estas escolhas que não foram feitas.

- Sim. - Ele respondeu como se fosse algo extremamente obvio. - É sempre importante lembrar o que deixamos para trás. Qual o custo que pagamos e quais as possibilidades que perdemos. 

- Mas não gera um arrependimento constante? Digo - Corrigiu em tempo ao ver a carranca do entrevistado endurecer - você não pode, com o tempo, perceber que fez escolhas não tão acertadas? 

- Talvez. Mas também serve para lembrar do seu potencial. Lembrar de tudo o que você poderia ter sido. 

- Mas não realizou. Saber que teve tantas possibilidades e lembrar delas constantemente é realmente tão necessário assim? 

- Claro. - Ele respondeu em um tom cheio de orgulho e uma pontada de mágoa. - Quanto mais escolhas abandonadas, quanto maior o seu colar, mais prestígio você tem. Faz parte de quem você é. 

- Mais do que as escolhas que você fez? 

- Com toda certeza. - O orgulhoso falou feliz por finalmente o repórter ter parecido entender. Ele sempre soube que as pessoas de fora eram menos capacitadas. 

Enquanto o repórter finalizava suas anotações, o dono do colar passava o dedo por suas contas. Não esperava que as outras pessoas percebessem a importância de se lembrar dos seus sacrifícios. Mas ele não esqueceria. Nenhum. 

Parou em uma conta menor e a encarou. Lembrava o que abandonou com ela. O que ganhou com isso mesmo?

Não fazia ideia. 

Mas também não importava, seu sacrifício estava claro. 


Para ele e para os outros.