quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Terapeuta

O homem senta calmamente no divã, aliviado por poder dar um descanso para as pernas depois de um longo dia de trabalho. A doçura do contato com a superfície macia e aveludada do estofado é quase inenarrável e o corpo facilmente coloca de lado por um tempo a memória do toque ríspido da cadeira do ônibus, onde permaneceu pela última hora e meia. Os olhos se dão a liberdade de permanecer fechados por um tempo pois aquele é o lugar seguro. Aquele é o lugar onde ele sente que deve estar.
Porém ao abrir os olhos, o olhar do terapeuta estava já fixo nos seus. Ele observava as pequenas reações, em silêncio. Calculava os pequenos espasmos e as coceiras involuntárias no nariz e no dedo anelar. Não era necessário dizer nada para que o estado de estresse fosse claramente comunicado pelo paciente. Ele era avaliado cuidadosamente. Até seu cheiro era percebido com cuidado pelo nariz bem treinado do terapeuta que, com os dedos e as palmas, pressionava levemente o tórax e captava, como em uma dessas tantas curas esotéricas milagrosas, as vibrações e a energia que emanavam do corpo deitado. Os olhares estavam próximos, como se atravessassem a barreira do que é físico, da simples interpretação vaga da porção de luz que é refletida e se dirige em direção a nós. A conexão era quase que mística, tanto quanto silenciosa.
No início, o homem até se perturbava com essa falta de respostas claras. Com essa falta de respostas. “Talvez aquele outro, que, ao menos demonstrava um pouco mais de calor quando eu chegava, que cumprimentava efusivamente logo na porta, fosse melhor pra mim” era um pensamento bastante recorrente nas primeiras sessões. Porém com o tempo esse silêncio se tornou um elemento essencial em todo esse processo de chegada e início de tratamento. Lá havia, à sua espera, um monge, pleno do vazio de si próprio e pronto para absorver as mazelas e o trazer para perto de seu estado quase divino. Estado esse que era bastante recorrente para a figura do terapeuta.
Por gerações ele era visto quase que como um deus, quando não o efetivamente era. Porém, ao longo do tempo, como tudo o que tem esse caráter imaterial, a figura desse terapeuta foi relegada a um nível rebaixado, sempre afogado pelas novas leis da física, da engenharia, das respostas exatas e precisas, com n casas depois da vírgula. Como se isso importasse para as figuras que vagam por aí, despreocupadas com o reconhecimento. “São coisas mundanas demais para eles,” concluiu por si próprio o paciente.
De fato para eles era suficiente o silêncio. Algo como um silêncio cerimonial, quebrado apenas por manifestações pontuais, quando a intransigência do paciente em interromper abruptamente a sessão passava dos limites. Uma palavra era suficiente para a repreensão. E o silêncio reinava em paz com o paciente novamente entregue às mãos do habilidoso terapeuta que como um psicólogo, arrancava impiedosamente o que dolorosamente guardamos em nosso íntimo.
Não há horário para o fim da sessão. Ela termina quando o terapeuta julga ser conveniente. Após todo o cerimonial, há sempre um abraço forte. O terapeuta abdica de toda sua reserva em relação a si e a seu corpo, deita-se ao lado do paciente – afinal o conforto daquela peça de estofado não deve se restringir apenas a ele – e adormece.
Este período de aconchego se estende por horas até o momento que uma separação, por vezes traumática, é forçada por motivos de força maior, por necessidades intrínsecas à figura e à função deste ser sublime e enigmático: Um pouco de leite, e uma ida rápida à caixa de areia.