terça-feira, 10 de abril de 2018

Paredes

Deitada na cama, com a nuca apoiada no travesseiro, era possível olhar em volta, analisando os poucos espaços ainda cinza nas paredes à sua volta. A pintura mal feita, que, anos atrás, dominava o ambiente já estava coberto de histórias, lembranças e memórias em forma de móveis, papel colado, desenhos, quadros, fotos.
    Ao fundo, em um dos cantos, ficava uma estante com uma dúzia de prateleiras, onde ela guardava todos os livros que lera. Eram décadas de leitura, empilhados, enfiados nos cantos, deitados nos vãos entre os livros e a prateleira superior, alguns estavam parcialmente para fora das prateleiras, formando estruturas em balanço, suportadas por uma involuntária lógica de empilhamento. Ocupando todo canto possível do móvel, eles começaram a se acumular no chão em volta. Livros empilhados viraram um criado-mudo improvisado, viravam pequenos aparadores, como o que completava a parede do fundo. Sobre esse aparador, pequenos enfeites, miudezas que fora acumulando pelos anos. Pequenas lembranças de quando era criança, o relógio que ganhara do avô, o primeiro colar de pérolas e um número considerável de pequenas caixas aveludadas com anéis, brincos, alianças de relacionamentos fracassados.
    Pôsteres e cartões-postais ocupavam o resto da parede, lembranças de vários países que conhecera, fotos suas com as pessoas que ela amava, mapas de cidades turísticas, todos eles se sobrepunham de alguma forma organizados, ao menos na cabeça dela. Sobre eles pequenos ímãs de geladeira estavam colados, por falta de uma geladeira para prendê-los. O ‘charme’ kitsch era bastante evidente nas pequenas miniaturas de locais que muitos apenas sonham em um dia conhecer.
    A parede da esquerda era parcialmente coberta com pastas e mais pastas. Folhas de papel almaço escapavam pelas frestas, cobertos de letras cursivas gordas. Relatórios jamais eram suficientes e o trabalho incessante havia ultrapassado qualquer limite quantitativo. Caixas arquivos davam uma sustentação a mais na base, igualmente cheias de papel. Por cima de uma pilha mais baixa, havia algumas roupas guardadas da época de escola. Uniformes, fantasias das festinhas de carnaval e vestidos de festa junina estavam dobrados um sobre o outro em uma pilha que poderia estar coroada por uma beca, se ela possuísse uma.
    Acima de tudo isso, mais pôsteres e fotos, cobertos em parte por diplomas e certificados acumulados durante uma vida de constante aprimoramento profissional, todos devidamente enquadrados. Já diziam os pais: “Se você não acompanhar o mundo e não estudar, o que você vai ser? Nada?”
    Falando em pais, eles mereciam um lugar de destaque na parede da direita. Sobre a já conhecida miscelânea de coisas coladas e rabiscadas nas paredes, haviam duas lindas fotos. O pai havia um olhar sereno e sagaz, vestia um terno elegante e ostentava um vistoso bigode. Sob o paletó, usava um colete de cujo bolso pendia um relógio prateado. No quadro ao lado, a mãe com uma vontade imensurável de sair da pose para dar um abraço. Havia sido um parto tirar aquela foto. Porém de todas as tentativas, esta foi a imagem perfeita. Um leve problema de foco dava um quê de natural para toda a cena. Ocupando o resto na parede estavam um sem-número de vasos com algumas dezenas de espécies de flores e plantas. Uma pequena trepadeira ousava se enrolar nos pés da estante de livros e procurar um caminho até a pequena janela alta. Era um pequeno vão, mas era o suficiente para atrair as folhas, as vinhas e os olhares para a luz do céu.
    O cheiro agradável das flores ocupava todo o ambiente e dava um certo alento para o caos. Durante as horas de sono, a lavanda que crescia no vaso mais largo deixava o seu perfume para aliviar a espera e a dificuldade de permanecer contando. Porém é cada vez mais raro encontrar a moça deitada na cama. Ela passava noites em claro, levantava e checava um pouco de tudo. Tudo ali era precioso demais para ela para que ela simplesmente negligenciasse cada detalhe.
    Porém, ultimamente, as noites em claro mudaram de tom.     A inquietude tomou conta e os passos se tornavam cada vez mais apressado, seguindo sempre o mesmo caminho, entremeando os montes de coisas. Ela respirava cada vez mais intensamente e seu coração batia dando a toada para esse princípio de loucura noturna. A cada instante a falta de ar a tirava de si mesma e colocava-a como espectadora de sua própria vida, olhando de fora do gradil que ficava onde deveria estar a quarta parede que fecharia a cela quadrada.
    Deitada na cama, com a nuca apoiada no travesseiro, seria possível contemplar tudo aquilo que estava em volta.
    Doeria menos.