quinta-feira, 3 de maio de 2018

Costumes

Mais uma terra distante, mais um povo isolado de outras civilizações.

O curioso é que aquele não era um lugar novo para o Viajante. Dois séculos antes, aquelas terras eram desertas. Agora, pessoas viviam em meia dúzia de cabanas de folha de palmeira à beira do lago. O Viajante os observava do alto de um morro, se escondendo atrás de uma pedra larga para não ser visto.

Só depois de muito tempo ele notou que uma mancha azul se movia na periferia da sua visão. Olhou para cima e o borrão se materializou na imagem nítida de uma moça com longos cabelos azuis sentada na pedra, abraçando os joelhos e observando-o com a cabeça inclinada como se não tivesse nenhuma outra preocupação no mundo. E talvez não tivesse mesmo.

— Vão te ver aí, Shuei! — o Viajante sussurrou, encolhendo-se mais do que era necessário para se manter escondido.

— Eles não podem me ver — ela respondeu com uma voz que soava como as ondas calmas do mar se quebrando aos pés de um penhasco.

— Ah é. Esqueci.

Shuei, como ele a chamava, era a personificação das águas e só aparecia para quem queria. Não sabia se ela tinha um nome original, mas numa das terras que visitou a chamavam de Shuei, e o som lhe agradava.

Ficaram observando em silêncio os homens do pequeno assentamento em seu ritual crepuscular, tentando entender o que toda aquela dança e gritaria em torno da palmeira significava. Fora do perímetro dos dançarinos, tochas altas foram acesas e fincadas no chão, e atrás delas as mulheres e crianças observavam com solenidade.

Em um dado momento, um dos homens abraçou a árvore e tentou subir nela sem o auxílio de equipamento algum. Os gritos agudos se intensificaram, parecendo incentivar o escalador, mas ele não passou da metade da árvore. Um após o outro, todos se revezaram na tentativa de escalar a árvore até que um deles finalmente conseguiu alcançar o topo da palmeira. De lá de cima ele cortou os cachos pesados de coquinhos e as mulheres, até então apenas nas margens daquela dança eufórica, se aproximaram com movimentos graciosos e recolheram os frutos que caíam no chão. O provedor de coquinhos foi presenteado com um colar de contas coloridas — os quais ele tinha em maior quantidade que os outros — e em seguida todos retornaram à calma rotina da noite, se preparando para o dia seguinte.

— Todo esse rebuliço por alguns coquinhos…

— A vida deles giram em torno daquela palmeira — Shuei lhe informou. — Com ela são capazes de montar seus abrigos. Dela eles tiram comida e preparam uma bebida especial que consideram sagrada. Depois que saem para caçar, é ela que lhes indica o caminho de casa quando todos os horizontes parecem um borrão verde uniforme. Aquela palmeira lhes representa segurança, sustento, família e a própria vida. Da mesma forma que a caixa de madeira na sua mochila representa essas coisas para você.

— Você fica me observando? — o Viajante perguntou, mais curioso do que ofendido.

— Eu observo tudo quando estou presente.

A tal caixa de madeira que ele carregava consigo desde que deixara o conforto do lar continha as memórias de sua avó. Sempre que sentia saudades de casa, ele a abria e se lembrava da mulher que o criou, da vida de aventuras que ela viveu e dos sonhos que realizou. Quando revirava o conteúdo de desenhos, fotos e cartas, o Viajante lembrava que tinha um nome e um passado, lembrava que tinha sonhos. Aquele era o pequeno ritual que o mantinha sempre na estrada há séculos. Aquele era o pequeno ritual que guiava a sua vida.

Então, olhando pensativa para o pequeno vilarejo, Shuei concluiu: — Pessoas se apegam aos detalhes mais estranhos. Mas é isso que dá a eles significado e poder.

— O que aconteceria se deixássemos de lado os nossos pequenos rituais?

— Você estaria disposto a abrir mão da caixa de madeira para descobrir?

Aquela pergunta deixou o Viajante atônito e embasbacado, buscando palavras no ar como se tentasse capturar borboletas com uma rede furada. Não que ela fosse difícil de responder. O problema era que a sua resposta seria um sonoro e indignado "Nunca!", embora em suas pretensões filosóficas ele esperasse que seus instintos fossem mais elaborados e profundos que aquela curta palavra. Sempre precisou viajar leve, carregando pouco mais que a roupa do corpo e o mínimo de apetrechos que o ajudariam a sobreviver entre cidade, por isso sempre havia se percebido como uma pessoa bastante desprendida de bens materiais. Porém, para ele era impensável se separar da caixa de memórias da avó. Ao mesmo tempo que lhes atribuía um significado que ia além da sua mera utilidade material, aqueles papéis e lascas de um passado que não lhe pertenciam definiam quem ele era no momento presente.

Com um pouco de assombro e vergonha, respondeu com sinceridade à pergunta da amiga: — Não sei. Certamente não quero me desfazer dela agora só para responder a essa questão.

A boca de Shuei se esticou em um sorriso levemente fatalista, mas também havia ternura no seu olhar.

— Essa é a sua resposta.